UNE marca diferenças com governo e critica cortes

UNE marca diferenças com governo e critica cortes

A União Nacional dos Estudantes (UNE) renova sua direção com críticas à política econômica e aos rumos da gestão da presidente Dilma Rousseff. O ajuste fiscal e os cortes de R$ 9,42 bilhões na área da educação, sobretudo no programa de financiamento Fies, serão alvos de protestos dos estudantes, que elegerão no domingo o novo comando da UNE no 54º congresso da entidade, que começa hoje em Goiânia.
Na sexta-feira, a entidade fará uma passeata na cidade escolhida para o congresso, contra o ajuste fiscal promovido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. As críticas do movimento estudantil reforçam a pressão do PT, de centrais sindicais e movimentos sociais contra a mudança de rumo do governo no segundo mandato.

A União da Juventude Socialista (UJS), ligada ao PCdoB, deve manter-se no controle da entidade, com a provável eleição da estudante de economia da PUC de São Paulo Carina Vitral, de 26 anos, presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP).

Carina diz que o ajuste fiscal é contraditório com a defesa feita por Dilma da “Pátria Educadora”, bandeira do segundo mandato. “No caso da educação o corte é mais grave porque pode comprometer o cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação e o investimento de 10% do PIB na área”, diz Carina. A estudante, da PUC-SP, instituição privada, deve substituir a atual presidente, Virgínia Barros, estudante de letras da USP, que também pontua críticas à política econômica. “Se a educação de fato é prioridade, precisa ter cada vez mais investimentos e não cortes”.

Além do ajuste fiscal, a UNE criticará também as alterações no acesso ao Fies, consideradas como “abruptas e sem aviso”, e deve cobrar mais transparência ao programa de financiamento.

A UNE é controlada pelo PCdoB desde os anos 80 com poucas interrupções. A base do movimento estudantil, no entanto, está em mutação acelerada: nos últimos anos diminuiu o peso dos estudantes em universidades públicas em relação ao total que cursa graduação no país. Em 2002, 30,2% do total estavam em universidades públicas. Em 2013, caiu para 26,4%. Já as universidades privadas tinham 69,7% dos estudantes em 2002 e aumentaram para 73,5% em 2013. Nesse período, o número de universitários passou de 3,4 milhões para 7,3 milhões.

A mistura de classes sociais aumentou e o perfil do universitário tornou-se menos elitizado. Em 2004, mais da metade dos estudantes era de famílias com maior renda, segundo a classificação do IBGE: 55% dos alunos das universidades públicas e 69% das privadas. Em 2013, o quadro mudou: caiu para 39% o percentual de estudantes de universidades públicas de famílias mais abonadas e para 43% os de universidades privadas.

Medidas como as cotas e programas como o Prouni e o Fies expandiram o acesso de alunos de baixa renda às universidades. Segundo dados do Ministério da Educação, as bolsas do Prouni quase triplicaram entre 2005 e 2014, de 112 mil para 306 mil. Já os beneficiados pelo Fies chegam cerca de a um terço do total de universitários da rede privada.

Com a mudança no acesso às universidades, a UNE teve de se adaptar às novas demandas, como a pressão por mais recursos para assistência estudantil e mais qualidade no ensino superior. “O perfil social mudou bastante. As universidades não são mais só da elite e passaram a incorporar os trabalhadores”, diz Virgínia.

O aumento de recursos do governo para a assistência estudantil, com benefícios como passe livre do transporte público, alojamento para universitários e alimentação deve ser prioridade na luta da entidade, diz Carina, em sintonia com o que defende a atual presidente da UNE. A entidade defende a destinação de R$ 2,5 bilhões do governo para esses gastos.

Com a ampliação do número de alunos nas universidades privadas, outra bandeira defendida por Carina é o controle do Ministério da Educação sobre o aumento da mensalidade, para conter abusos. A qualidade das universidades privadas e o combate ao sucateamento das universidades públicas também são bandeiras citadas pela candidata da UJS. “A prioridade deve estar nas universidades privadas que têm qualidade. Hoje o estudante muitas vezes se endivida em uma universidade que não será boa para seu currículo”, diz.

A UNE estima a participação de 6 mil delegados estudantis- a maioria de universidades privadas. A presidente Dilma foi convidada, mas não deve participar. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a um congresso da entidade quando estava na Presidência, em 2009.


Cristiane Agostine | Valor Econômico

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