UNILA – A universidade como bem público

Francisco Tamarit: “A educação superior é um bem público das nossas sociedades”

O futuro do ensino superior está em risco. Temos de mostrar que estamos procurando um benefício para toda uma sociedade castigada, injusta, marginal, para a qual temos de apresentar soluções de um futuro de prosperidade para todos”. A afirmação é do ex-reitor da Universidad Nacional de Córdoba, Francisco Tamarit, que proferiu uma Aula Magna no 35º Seminário de Extensão Universitária da Região Sul (SEURS). Tamarit trabalhou o tema “A universidade como bem público”, muito pertinente ao momento atual em que se discute a importância do ensino público superior gratuito e de qualidade. O professor apoiou-se também no tema do evento – a internacionalização – ao lembrar a importância do trabalho em rede das universidades públicas da América Latina e o Caribe com foco na sustentabilidade das instituições, para a defesa de que o ensino superior continue sendo visto como um direito humano e universal, um bem social e de responsabilidade dos estados.

Tamarit iniciou a discussão lembrando que a Unesco realiza, a cada 10 anos, um evento internacional para discutir sobre educação, com a participação de diversos países que apresentam diferentes modelos universitários. Nas reuniões preparatórias, os representantes latino-americanos e caribenhos defenderam o modelo de educação pública. “De um lado, a Inglaterra, os Estados Unidos, o Canadá e alguns países da Ásia entendem que cada cidadão deve financiar a sua educação superior. Por outro lado, há a tradição de países como França, Alemanha e outros da Europa, que entendem a educação superior como direito, muito próximo do que estamos trabalhando na América Latina, mesmo de forma tão heterogênea”, explica.

Em 2015, no México, no encontro da rede de reitores de universidades da América Latina, ficou claro que o grupo compartilhava um mesmo objetivo, de que a educação superior tem que ser um direito humano e universal, além de ser responsabilidade dos estados. “A educação é um bem público das nossas sociedades”, frisou o palestrante. Ele também lembra que o mesmo compromisso foi firmado no Panamá, também em 2015, na reunião de presidentes dos países das Américas, que convergiram para entender a educação como um direito, um bem social, com o qual todos os países têm suas responsabilidades.

Tamarit lembra que, enquanto alguns pensam na educação como um direito, em outras partes do mundo ela está sendo vista como um produto mercadológico. “Há 30 anos, os nossos países estão se defendendo de um processo de mercantilização. Por trás da ideia de internacionalização global, de formar cidadãos do mundo, alguns grupos olham para a educação superior como um bem de mercado”. Nesse tipo de modelo, que surgiu com força na década de 1990, os estados não têm responsabilidade de financiar ou de manter a qualidade do ensino superior, permitindo que seja regulado pelas leis do mercado.

No segundo congresso realizado pela Unesco, em Paris, Tamarit conta que estava para ser aprovado um documento apontando que o ensino superior não seria mais um direito inerente ao cidadão, mas uma livre ação do mercado, impulsionada, segundo ele, pela expectativa de convênios internacionais que tendiam a colocar o ensino superior como um bem comercializável, o que poderia facilitar o processo de internacionalização. “Há um entendimento de que como o conhecimento é de todos, a universidade é global, que não tem que ter vínculo com o local. Mas não acreditamos nisso. A América Latina quer formar cidadãos para o mundo todo, mas quer começar analisando primeiro a problemática local. O maior problema em termos de educação é fazê-la como um direito ligado à realidade social das comunidades que sustentam o sistema”.

Cem anos da Reforma de Córdoba

A Universidad Nacional de Córdoba, tão conhecida por ser o palco de grande movimento que mexeu com a estrutura do ensino superior na América Latina, será o ambiente de um grande encontro das universidades do continente em 2018, momento em que serão comemorados os cem anos da Reforma Universitária de Córdoba. “Completará um século que os estudantes tomaram a universidade e forçaram o governo a modificar a estrutura vigente. Em homenagem àqueles estudantes, queremos convidar todos vocês a participarem desta conferência que será realizada de 15 a 18 de junho”.

Nessa conferência, serão tratadas temáticas universais, não diretamente ligadas às experiências das instituições, mas com propostas para discutir o futuro das universidades públicas, tratando eixos temáticos como o desenvolvimento sustentável na América Latina, o sistema educativo, a diversidade cultural e a interculturalidade, o processo de internacionalização, a pesquisa científica, tecnológica e a inovação como motor de desenvolvimento humano, social e econômico da América Latina.

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