Universidade e formação para o mundo: o limiar entre a crítica e a especialidade

Universidade e formação para o mundo: o limiar entre a crítica e a especialidade

Como a universidade pode formar profissionais adaptados à sociedade contemporânea sem perder sua capacidade de pensamento crítico e inovador? O alto grau de especialização exigido pelo mundo do trabalho nas sociedades contemporâneas torna cada vez mais necessária uma formação universitária de qualidade. Isso obriga a universidade a lidar com antagonismos de toda sorte, tais como formação especializada versus formação ampla na trajetória ou nos percursos das estruturas curriculares. Isso tem explicitado o desafio de cada curso para formar profissionais cada vez mais especialistas – da graduação ao doutorado.

Entre o profissional especialista e o generalista existe um grande hiato que leva a comunidade universitária a um limiar um tanto quanto complexo entre a interdisciplinaridade e a especialização. A conjugação do tripé ensino, pesquisa e extensão evoca a necessidade dos departamentos e cursos de lidar com problemas de natureza não departamentais, portanto, indutores da interdisciplinaridade. Há um conjunto de cursos de graduação e projetos de pesquisa elaborados de maneira estruturalmente interdisciplinar, que demanda maior articulação interinstitucional e esforços de superação de fronteiras acadêmicas e disputas intelectuais.

A divisão existente entre as formações em ciências exatas, biológicas, humanas e sociais aplicadas, assim como em artes e tecnologias, tem tornado a Universidade um espaço cada vez mais fragmentado e disciplinar. Se é desejável uma formação e um fomento ao pensamento não disciplinar e crítico, é necessário romper com essas divisões e conjugar a solução de problemas, teóricos ou empíricos, de modo transdisciplinar e inovador. O fomento à problematização de viés interdisciplinar é obstaculizado por uma visão da necessidade de ultraespecialistas formados para o mundo do trabalho que pouco ou nada se interessam pelo que está sendo desenvolvido na unidade ou no núcleo de pesquisa. Essa visão, por assim dizer, tacanha e apequenada, torna as condições da produção das ciências e do conhecimento particularmente problemáticas na universidade em tempos de escassez de recursos, de sobrecarga de trabalho e de uma estrutura que nem sempre é favorável à reflexão livre e à produção contínua e sistemática de conhecimento de qualidade.

Se pensarmos em uma universidade idealmente coerente com os valores da sociedade contemporânea, certamente estaríamos nos distanciando daquilo que o sociólogo alemão Max Weber criticou na sociedade moderna, marcada pela formação de um tipo ideal de ‘especialista sem espírito’, que tudo sabe acerca de seu mundo de atividade e nada sabe, tampouco se interessa em conhecer o contexto ampliado que determina esse seu pequeno mundo. Ainda para Weber, seria essa a marca do ideal de civilização nas sociedades em que vivemos.

A necessidade de inovação, crescentemente estimulada por organizações, empresas e governos, é, certamente, a marca que distingue a modernidade, mesmo tardia em países como o Brasil, que, muitas vezes, precisa importar inovações para manter-se competitivo num mundo cada vez mais globalizado e integrado. Isso faz os profissionais formados na universidade ganhar tempo e se valer de estratégias de aprendizagem que caminham no passo acelerado do desenvolvimento técnico-científico. Exemplos disso são os eventos, congressos, palestras e conferências, que são rotina na universidade e servem de formação continuada tanto para os especialistas de uma determinada área do conhecimento quanto para estudantes que têm nesses eventos uma oportunidade de expor suas pesquisas e projetos de extensão como forma de aprimorá-los e divulgá-los. Há também recursos disponíveis na universidade para essa formação, como bibliotecas, acesso a periódicos internacionais e grupos de estudo. Estes últimos podem ser considerados as unidades básicas da produção e consolidação de conhecimentos em determinados campos.

Alguns fatores chegam a ser gargalos para o desenvolvimento e popularização do conhecimento, da ciência e da tecnologia no país. O principal deles é anterior à entrada dos estudantes na universidade e se relaciona com os problemas enfrentados pelo ensino médio, como as deficiências na formação em línguas e em ciências exatas. Esses problemas são por vezes trazidos para o interior da Universidade, que precisa processá-los e corrigi-los para não comprometer o percurso acadêmico dos estudantes. Outro desafio diz respeito à valorização dos professores, da produção da pesquisa e extensão, assim como do corpo técnico-administrativo da Universidade, por vezes invisível nas discussões.

Em síntese, a universidade vive dois desafios: formar especialistas críticos capazes de produzir questionamentos sobre os problemas do mundo real, na tentativa de solucioná-los, e promover, de maneira democrática e livre, melhores condições para a formação de profissionais qualificados e capazes de compreender sua inserção na sociedade do conhecimento.

Lucas Cunha
*Mestre em Cência Política, pesquisador do Centro de Estudos Legislativos (CEL/DCP) e doutorando em Ciência Política na UFMG. Autor do livro O emendamento das medidas provisórias no Brasil

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