Universidade para os novos tempos

Universidade para os novos tempos

Mesmo mantendo o ritmo de crescimento, dificilmente o Brasil preparará a quantidade necessária de profissionais para atender a essa demanda

Hoje, o Brasil festeja os ventos que inflam a economia, louvando em prosa e verso tanto as perspectivas abertas no mar, com o pré-sal, quanto em terra, com a exploração da biodiversidade, o potencial da energia renovável, a proximidade da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. Por aí caminha o desenho do futuro risonho.

Mas e o reverso da medalha? Sinais de fragilidade já são perceptíveis e, em boa parte, dizem respeito à crônica carência de capital humano, mais uma ameaça à sustentabilidade do desenvolvimento.

A título de exemplo, pesquisas indicam que somente a construção civil -o tradicional carro-chefe da expansão da economia, dada a rapidez com que responde aos estímulos, absorve grandes contingentes de mão de obra, alimenta ampla cadeia produtiva e alavanca o consumo- amargará um deficit de 38,5 mil profissionais, que se multiplicará, caso se confirmem as previsões de crescimento do PIB a taxas acima de 5%.

O mais preocupante é que muitas dessas vagas não serão preenchidas por falta de profissionais capacitados. Adicionalmente, é também a construção civil que sinaliza para a ponta do iceberg que poderá emperrar as promessas de crescimento: a carência de engenheiros, resultante do desinteresse pela graduação que despencou da terceira para a 16ª posição entre os cursos mais procurados, de 1997 a 2006.

Como resultado, o Brasil conta com 480 mil engenheiros, muito pouco para uma população perto dos 200 milhões de habitantes.

A boa notícia é que os 2.032 cursos em funcionamento voltam a atrair alunos, registrando 140 mil matrículas neste ano. A má notícia é que, mesmo mantendo o ritmo de crescimento, dificilmente o Brasil preparará a quantidade necessária de profissionais para atender à demanda do crescimento.

Basta lembrar que, com o pré-sal, somente o setor petrolífero exigirá 150 mil engenheiros especializados. Ou, ainda, que cada milhão de dólares aplicado em novos investimentos produtivos abre vaga para mais um engenheiro.

Como uma má notícia nunca vem sozinha, as empresas também detectam a carência de profissionais ligados aos vários ramos das formações em tecnologia, considerando que o mercado deverá gerar 100 mil vagas para tecnólogos até 2011 e mais 200 mil até 2015.

Com exceções de praxe, esse deficit se repete em dezenas de outras áreas de atuação, visto que apenas cerca de 5 milhões de jovens chegam às faculdades (dados de 2007/ Inep), contra os 20 milhões, na faixa dos 16 aos 18 anos, que ficam à margem do ensino superior.

Apenas esses números -e, portanto, desconsiderando a má qualidade do ensino- recomendariam que os candidatos às próximas eleições incluíssem entre suas prioridades a revisão da matriz da formação profissional, dotando a rede de ensino superior de flexibilidade para propiciar, além da acadêmica, formações específicas para docência, pesquisa e habilitações para o mercado de trabalho.

Com isso, atenderia às necessidades do crescimento e às aspirações dos jovens e das famílias de baixa renda que, ao terem acesso ampliado ao topo da pirâmide educacional, sonham principalmente em galgar um patamar superior de qualidade de vida.

Ruy Martins Altenfelder Silva é presidente do Conselho de Administração do Ciee/SP (Centro de Integração Empresa-Escola) e do Conselho Diretor do Ciee nacional. Foi secretário da Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo (2001-2002).

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