Após certo tempo em que fiquei sem olhar para a minha própria trajetória, resolvi, diante de alguns episódios recentes, mergulhar na construção do meu memorial acadêmico — senão de vida. Deste mergulho — onde inevitavelmente refleti sobre quem sou, de onde vim, quais desafios enfrentei, quais conquistas construí, quais derrotas me ensinaram e quais obstáculos ajudaram a moldar novos caminhos — emergiu um despertar: a vontade de falar daquelas e daqueles que, com seu trabalho silencioso e persistente, carregam a força capaz de transformar um país: as educadoras e os educadores que iluminam caminhos e constroem futuros.

Em meio às urgências do nosso tempo, quando o país busca novos caminhos para justiça social, inovação e desenvolvimento, há uma verdade que permanece incontornável: nenhuma nação avança sem quem educa. São essas pessoas que, na sombra ou em plena luz, moldam consciências, despertam talentos, fortalecem cidadania e acendem, nas pessoas aprendentes, um sentido de mundo. A docência é o ponto de partida de todas as outras profissões — e por isso carrega um valor que não pode ser apenas reconhecido, precisa ser celebrado.
O Brasil convive com uma contradição persistente: nunca se exigiu tanto da escola e da docência, nunca se esperou tanto da educação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil atrair e manter pessoas educadoras motivadas e valorizadas. É nesse terreno instável — entre a expectativa social e a fragilidade das políticas — que se revela o risco de um apagão docente, especialmente nas áreas que sustentam as ciências básicas. Este artigo não é um lamento: é um chamado.
É hora de reconstruir o sentido da docência como projeto de vida. Não apenas como profissão, mas como missão social capaz de manter vivo o sonho de um país mais justo, soberano e plural. Valorizar quem educa é investir no futuro — não no futuro abstrato dos discursos vazios, mas no futuro concreto das crianças que chegam à escola com perguntas gigantes, das pessoas jovens que carregam inquietações densas e das que, adultas, confiam na educação como ponte para novas oportunidades.
A carreira docente precisa ser digna, estável, atrativa e respeitada. É fundamental garantir condições reais para que quem educa possa planejar, criar, dialogar e inovar. Isso inclui formação sólida, políticas de apoio, reconhecimento público e tempo adequado para pensar e aperfeiçoar a prática pedagógica. Também é preciso oferecer incentivos que permitam às novas gerações enxergar a docência como escolha possível — e desejável. Mas há algo que nenhum plano de carreira substitui: o brilho que nasce quando uma pessoa educadora percebe que seu trabalho teve impacto na trajetória de alguém.
Tal força simbólica, humana e transformadora sustenta a esperança — e é exatamente esse horizonte que precisa ser apresentado às novas gerações, não como mito, mas como realidade cotidiana das escolas do país.
Por isso, este texto é um convite. Um convite para devolver à docência o lugar que lhe pertence: o de protagonista da formação humana e da construção nacional. Um convite para que governos, universidades, redes de ensino e sociedade civil se unam na reconstrução de uma política robusta de valorização e renovação docente. E, sobretudo, um convite às pessoas que buscam propósito. A educação é uma estrada onde cada gesto se multiplica, onde cada encontro produz futuro, onde cada aprendizado pode transformar um destino.
O Brasil precisa de docência. Não por falta — mas por esperança. Porque é na ação de educar que reside a semente de tudo o que ainda podemos ser. Que as novas gerações saibam: ensinar não é apenas transmitir conteúdo; é participar da arquitetura do mundo. E isso é grande demais para ser ignorado.
Que a docência volte a ser vista como aquilo que verdadeiramente é: uma escolha de coragem, afeto e potência. Um ato de criação do amanhã, um tesouro para qualquer nação.
João Luiz Martins
Professor do Departamento de Matemática -Campus Blumenau
Universidade Federal de Santa Catarina
Ex-Reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP, 2005-2013).
Ex-Presidente da Andifes(2011-2012).