Texto: Sueli de Freitas Edição: Thereza Marinho

“A universidade deve ser, por excelência, o espaço da ciência e do saber; porém, acima de tudo, ela precisa ser um território livre de todas as formas de violência e um farol dos direitos humanos”. A afirmação é do reitor da Ufes, Eustáquio de Castro, no evento de lançamento da campanha Banco Vermelho e da assinatura da portaria que cria uma comissão para elaborar o Protocolo de Enfrentamento às Violências de Gênero no âmbito da Universidade, realizado na tarde desta quinta-feira, 19, no Cine Metrópolis, no campus de Goiabeiras.
O reitor afirmou que “a luta contra a violência de gênero não se faz apenas com palavras, mas com estruturas e representatividade”, daí a assinatura da portaria significar “um marco fundamental” contra as violências de gênero.
Já a vice-reitora da Ufes, Sonia Lopes, lembrou que as universidades, incentivadas pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que aprovou a adesão institucional à campanha Banco Vermelho, estão integrando um pacto pelo fim da violência contra as mulheres. A campanha é uma iniciativa internacional de combate à violência doméstica e ao feminicídio, que foi oficializada no Brasil pela Lei 14.942/2024, prevendo ações de conscientização em lugares públicos.
“Estamos, sobretudo, produzindo um posicionamento institucional. Estamos dizendo que a universidade pública não se omite diante da violência, que ela não naturaliza o silêncio, não compactua com nenhuma forma de violação de direitos. O Banco Vermelho carrega uma mensagem potente. Ele é um marco de memória e um convite permanente à reflexão sobre a violência que atinge, cotidianamente, mulheres em nossa sociedade e que, também, atravessa os espaços acadêmicos. Esse banco não fala apenas da ausência. Ele fala da urgência da presença. Presença de políticas públicas, de escuta, de acolhimento e de responsabilidade institucional”, afirmou.

O evento – que marcou o lançamento de uma agenda institucional afirmativa de enfrentamento à violência sexual e de gênero – reuniu centenas de pessoas, a maioria mulheres, e também contou com a participação da secretária de Ações Afirmativas e Diversidade da Ufes, Patrícia Rufino; da professora e representante do Conselho Estadual LGBT+ Jeffa Santana; da diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Ufes (Sintufes) Edirene Rosa Coninck; e da diretora do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Alice Figueiredo. Também compôs a mesa de abertura, como convidada, a chefe do Estado-Maior da Polícia Militar do Espírito Santo, coronel Luciana Ferrari.
Discussão e enfrentamento
A secretária de Ações Afirmativas e Diversidade e coordenadora do evento, Patrícia Rufino, destacou o quão importante é a Ufes construir um protocolo de combate à violência e aderir à campanha Banco Vermelho. “A gente tem visto o aumento do número de feminicídios no Brasil e, enquanto universidade, é fundamental trazer esse tema à discussão e também desenvolver um protocolo institucional de enfrentamento à violência de gênero, que está em todos os lugares, é um problema estrutural. A inauguração do Banco Vermelho aqui em Goiabeiras materializa esse primeiro momento na Universidade”.
Rufino destacou que ações institucionais serão atualizadas a partir do protocolo de enfrentamento à violência contra a mulher: “Na comissão que vai trabalhar no protocolo teremos gestores, conselheiros, professores, docentes, técnicos, estudantes, ou seja, todos os segmentos da Universidade. Em 60 dias, vamos encaminhar aos Conselhos Superiores a primeira etapa do projeto para que eles possam fazer a leitura, avaliar e, a partir daí, dar os encaminhamentos necessários”.
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Dados
Após a instalação simbólica da Comissão para o Protocolo de Enfrentamento às Violências de Gênero, a professora do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD/Ufes) Rosely Pires, que desde 2005 coordena o programa de extensão e pesquisa Fordan: Cultura no Enfrentamento às Violências, fez uma palestra sobre os desafios atuais. A partir de dados oficiais da Secretaria Estadual de Segurança Pública, ela demonstrou que as maiores vítimas da violência doméstica são as mulheres negras, com idade entre 18 e 44 anos, sendo que os casos concentram-se nos finais de semana, quando a maioria das redes de apoio institucionais não estão funcionando. “Não existe padrão de assassino, estão em todas as classes sociais, há marido de mais de vinte anos de convivência matando a mulher”, contou ela. Para Pires, “enquanto não se desconstruir a misoginia, não vai cair o número de feminicídios”.
A professora também falou sobre o fluxo de acolhimento dentro da Ufes, indicando que qualquer vítima de violência pode procurar o projeto Fordan, a Diretoria de Segurança e Logística (DSL) ou a Pró-Reitoria de Políticas de Assistência Estudantil (Propaes).

A subtenente Gisele Eliane Costa Silva, que integra a Companhia Independente de Prevenção à Violência doméstica e Proteção da Mulher do Espírito Santo, falou sobre as ações da Patrulha Maria da Penha, redes de proteção às mulheres e o papel da sociedade e das instituições no combate à violência de gênero.
Segundo a subtenente, no Espírito Santo já são quatro casos de feminicídio desde janeiro deste ano. Ela lembrou que o Brasil é o quinto país do mundo onde mais se mata mulheres por questões de gênero. “A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado e individual. Ela está inserida num contexto histórico de desigualdade de gênero, necessitando de uma legislação específica para o tema. A Lei Maria da Penha é um marco jurídico que rompeu com a invisibilidade histórica da violência doméstica no Brasil”.
Encerrando o evento, Eustáquio de Castro, Sonia Lopes e Patrícia Rufino inauguraram oficialmente o primeiro banco vermelho da Ufes, que será instalado em frente ao Teatro Universitário, no campus de Goiabeiras. A partir desta ação, outros bancos vermelhos – todos com um cartaz de conscientização sobre as diferentes formas de violência contra a mulher e canais de denúncia – serão instalados em todos os centros de ensino da Ufes nos campi de Vitória, Alegre e São Mateus.
Fotos: Ana Oggioni e Thereza Marinho