Pesquisa sobre a proteína derivada da placenta segue em fase clínica; 84 pessoas já receberam autorização para uso compassivo do tratamento experimental.
Por Redação g1
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Tatiana Sampaio, cientista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista à Reuters 27 de março de 2026 — Foto: REUTERS/Pilar Olivares
A pesquisadora Tatiana Sampaio disse, em entrevista à agência de notícias Reuters, que um estudo revisado por pares sobre a polilaminina está prestes a ser publicado, sem informar o nome da publicação envolvida.
A declaração ocorre em meio ao crescente interesse pelo tratamento experimental para lesões na medula espinhal, que ainda passa por testes para comprovar sua segurança e eficácia em humanos. A Anvisa liberou o uso compassivo, mas os especialistas afirmam que é precoce a aplicação.
A polilaminina é uma proteína derivada da placenta que busca estimular a regeneração de nervos lesionados. O tratamento ganhou notoriedade no Brasil após resultados promissores em estudos com animais e a divulgação de um estudo preliminar, em 2024, promovido pela farmacêutica Cristália, que adquiriu a patente da tecnologia e vem fazendo um investimento milionário. A Cristália investiu mais de R$110 milhões no desenvolvimento da polilaminina.
Para que uma pesquisa seja reconhecida, ela precisa passar pela revisão por pares — em que outros especialistas leem o texto e avaliam se o que está sendo apresentado foi feito de acordo com os parâmetros da ciência, se não há conflitos e vieses.
Atualmente, a polilaminina não tem uma pesquisa publicada com seus resultados em pacientes humanos. Ao g1, Sampaio disse que a primeira versão corrigida do texto chegou a ser apresentada a duas revistas: a “Nature Communications” e o “Journal of Neurosurgery”. O trabalho, no entanto, foi rejeitado pelos dois periódicos.
Entre os pontos citados à época para justificar a negativa estavam: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas.
Entre os pontos que Tatiana chegou a admitir em entrevista, estava um paciente que morreu poucos dias após o procedimento, mas que nos dados do estudo aparecia com melhoras registradas após cerca de 400 dias de tratamento.
Pesquisa autorizada pela Anvisa
Apesar dos resultados apresentados na pesquisa, especialistas dizem que ainda há muitas dúvidas sobre a polilaminina. Todas elas devem ser solucionadas com a pesquisa autorizada pela Anvisa, mas que ainda deve ser iniciada pelo Cristália.
A pesquisa que existe é prévia e não vale para dizer se uma substância funciona ou é segura. Inclusive, no próprio estudo Tatiana e sua equipe não descartam o risco da substância.
No pré-print, os pesquisadores afirmam que mortes por pneumonia e sepse registradas entre os participantes poderiam, em princípio, estar ligadas a um possível efeito imunossupressor (capacidade de reduzir a atividade do sistema imunológico) provocado pela polilaminina.
Para garantir que a polilaminina é segura e eficaz ainda são necessários:
- Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos – começando pela fase 1, voltada à segurança em pequeno grupo. Isso foi aprovado em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética. Ou seja, ainda não começou.
- Depois, caso seja provada a segurança, vai ser preciso ampliar os testes nas fases 2 e 3 – em que é avaliada a eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores.
- Caso as duas fases acima sejam um sucesso, então é solicitado o registro sanitário. Após a aprovação, o medicamento pode ser comercializado.
A Anvisa autorizou um ensaio clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em cinco pacientes com lesões agudas completas da medula espinhal. O estudo inclui pessoas entre 18 e 72 anos tratadas em até 72 horas após o trauma.
Se não tem pesquisa, por que pessoas estão usando?
Segundo a Cristália, que investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento do medicamento, a empresa tem doado o tratamento para pacientes agudos após autorização da agência reguladora.
No Brasil, existe uma lei que permite o uso compassivo de uma substância. Por essa via, pacientes que têm uma doença para a qual não há outra chance de tratamento podem pedir à Anvisa o uso. Essas aplicações não fazem parte de um estudo e esses pacientes não são acompanhados pela equipe de Sampaio.
Até o momento, de acordo com o Cristália, 84 pacientes receberam autorização para uso compassivo da polilaminina, sendo 44 por decisão judicial e 40 por vias administrativas.
Apesar do entusiasmo, pesquisadores e entidades científicas afirmam que ainda é cedo para concluir que o tratamento funciona.
Marco Baptista, diretor científico da Fundação Christopher & Dana Reeve, classificou a pesquisa como inovadora e promissora, mas destacou que ela representa apenas uma entre diversas abordagens experimentais ainda em fase inicial de desenvolvimento. Segundo ele, é necessário confirmar tanto a segurança quanto a eficácia do tratamento antes de qualquer conclusão.
A Academia Brasileira de Neurologia também defende cautela. O presidente da entidade, Delson José da Silva, afirmou que a comunidade científica deseja o sucesso da pesquisa, mas que ela precisa cumprir os critérios exigidos para validação científica.