UFBA homenageia vítimas da Ditadura e concede diplomas a estudantes impedidos em seus cursos

Diplomados: estudantes impedidos na Ditadura | Foto: Ascom

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Sentimentos de gratidão, justiça, memória, reparação e defesa da democracia deram o tom da cerimônia “Memórias da Resistência: Homenagem da UFBA aos Mortos, Desaparecidos e Perseguidos pela Ditadura Civil-Militar na Bahia”, realizada no início da noite de quinta-feira, 9 de julho de 2026, no Salão Nobre da Reitoria. Como parte das comemorações dos 80 anos e integrando as atividades do Congresso da UFBA, a sessão de teve o objetivo de reconhecer estudantes e integrantes da comunidade universitária que foram atingidos pela repressão política do período, preservar a memória das violações cometidas pelo Estado e reafirmar o compromisso institucional com a democracia, a justiça e os direitos humanos.

O evento homenageou 297 de pessoas (lista com nomes ao final) diretamente atingidas pela Ditadura Militar, distribuídas entre membros da comunidade universitárias (estudantes, professores e técnicos-administrativos) mortos e desaparecidos políticos e pessoas impedidas de concluir seus cursos e atividades laborais na UFBA. Um dos momentos centrais foi a concessão simbólica de diplomas a 23 estudantes que tiveram suas trajetórias acadêmicas interrompidas pela perseguição política. O simbolismo do ato de entrega reconheceu que “o afastamento desses discentes da Universidade não ocorreu por escolha ou incapacidade, mas como consequência da violência institucional praticada durante o regime autoritário”, segundo o reitor Paulo Cesar Miguez.

Mais que uma solenidade acadêmica, o ato de homenagem foi um gesto público de reparação histórica e fruto dos trabalhos da Comissão Milton Santos de Memória e Verdade da Universidade Federal da Bahia e de deliberação do Conselho Universitário da UFBA (Consuni), na reunião ordinária do dia 26 de fevereiro de 2026.  As atividades contaram com intensa participação do público, mediante aplausos, demonstrações de emoção e, após a leitura de nomes de vítimas reconhecidamente mortas pela ditadura, interações responsivas em coro: “presente!”.  O envolvimento dos presentes evidenciou que a lembrança das violações do passado permanece relacionada aos desafios políticos e institucionais do presente.  A cerimônia está disponível na íntegra pode ser conferida aqui .

Diplomação de estudantes impedidos

Um dos momentos mais significativos da cerimônia foi a diplomação simbólica dos estudantes da Universidade Federal da Bahia que foram impedidos de se matricular e dar seguimento aos seus estudos em decorrência da perseguição política, promovida durante a Ditadura Civil-Militar. A concessão dos diplomas representou um ato institucional de reconhecimento e reparação às pessoas cujas trajetórias acadêmicas foram interrompidas, não por falta de mérito ou por decisão pessoal, mas pela atuação repressiva do Estado, que lhes retirou o direito à educação e à continuidade de seus projetos de vida”, segundo Miguez.

Os diplomas impressos foram entregues a alguns homenageados ou a seus familiares e representantes presentes. Os documentos conferiram visibilidade às violações sofridas e reinscreveram simbolicamente esses antigos estudantes na história da UFBA. Foram diplomados: Amálio Couto de Araújo Filho; Antônio Pinheiro Sales; Armando Paraguassu de Sá Filho; Aurélio Miguel Pinto Dórea; Carlos José Sarno; Carlos Roberto Tibúrcio de Oliveira; Celso Cotrim Coelho; Ederval Araújo Xavier; Eduardo José Monteiro Teixeira; Eneida Leal Cunha; Genebaldo de Lima Queiroz; Iracema Luiza de Souza; João Ribeiro de Souza Dantas; Jurema Augusta Ribeiro Valença; Luiz Júlio Silva Ferreira; Luiz Ney Lacrose de Almeida; Marcelo Ribeiro Cordeiro; Marie Helene Russi; Renato Affonso; Rogerio Cunha de Campos; Rui Pinto Patterson; Ruy Hermann Araújo Medeiros; e Sara Silva de Brito.

Momentos da cerimônia

Com os temas da memória, da resistência e da liberdade, a solenidade também teve uma dimensão artística e afetiva com apresentações musicais. Uma das falas mais emocionadas foi a de Diva Santana, integrante do Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia – e irmã de Dinalva Oliveira Teixeira, desaparecida política durante a Guerrilha do Araguaia. Para ela, a concessão dos diplomas constituía uma medida de justiça de transição, por reconhecer as pessoas que não conseguiram concluir seus cursos em decorrência da perseguição e das sequelas produzidas pela tortura.

“É a promoção de um ato de justiça de transição. A Universidade confere diplomas às pessoas que não conseguiram concluir seus cursos por causa das retaliações e das sequelas das torturas”, declarou.  Diva relatou que “os efeitos da repressão não terminaram com a libertação dos presos políticos ou com o encerramento formal da ditadura. Taquicardia, ansiedade, medo e outras consequências físicas e psicológicas acompanharam as vítimas durante décadas, limitando suas relações pessoais, profissionais e acadêmicas.  A tortura impediu as pessoas de crescerem e de seguirem seus projetos de vida. É preciso lembrar para que nunca possamos esquecer”, acrescentou.

Responsável pela conferência principal, o ex-ministro dos Direitos Humanos (2005-2010), Paulo de Tarso Vannuchi definiu a solenidade como um momento de “resgate da memória e celebração do futuro”. Ex-preso político durante a ditadura, Vannuchi relacionou o reconhecimento das vítimas à necessidade de impedir que discursos autoritários e práticas de violência estatal voltem a ser naturalizados.

Vannuchi que também é membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, considerou que a ação como “um resgate da memória e, ao mesmo tempo, uma celebração do futuro”,  sustentando que “recordar as violações não significa permanecer preso ao passado. Ao contrário, conhecer a história permite identificar os mecanismos que sustentaram o autoritarismo e construir instituições capazes de proteger a democracia”, finalizou.

O reitor Miguez destacou que “construir o futuro exige cuidado permanente com a memória institucional”. Ele afirmou que a homenagem representava o cumprimento de uma obrigação da Universidade com as pessoas que foram perseguidas e com a sociedade brasileira. O reitor ressaltou que “a UFBA não poderia celebrar oito décadas de existência sem reconhecer as pessoas excluídas de seus espaços por decisões políticas e mecanismos de exceção”.

O secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, Felipe da Silva Freitas, definiu a cerimônia como um ato de justiça e reparação. Segundo ele, “o reconhecimento público das violações é uma responsabilidade que deve ser assumida tanto pelo Estado quanto pelas instituições que tiveram suas estruturas atravessadas pela repressão”. Felipe Freitas enfatizou que “a reparação não elimina os danos provocados às vítimas e aos seus familiares, mas representa um passo necessário para que o Estado reconheça formalmente a violência cometida”.

A professora da Faculdade de Educação da UFBA e presidente da APUB Sindicato, Raquel Nery Gomes Lima, salientou que “a homenagem era resultado da luta de pessoas que se organizaram em defesa de seus projetos coletivos e que, em razão desse envolvimento, tiveram seus sonhos interrompidos pela repressão”. Raquel Nery observou que professores, estudantes e trabalhadores foram vigiados, perseguidos, afastados ou impedidos de permanecer na Universidade durante a ditadura. Para ela, “recordar essas experiências significa reconhecer a contribuição daqueles que defenderam a universidade pública e a liberdade mesmo diante da censura, da violência e do risco de prisão”.

O técnico-administrativo, José Bonfim, representante do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais no Estado da Bahia (ASSUFBA), lembrou que “naquele período, como era proibido sermos sindicato, nós nos registramos como “associação”, para podermos fazer a luta e enfrentar aqueles que não admitem que a Universidade seja como ela é por natureza: democrática, plural e comprometida com os interesses da sociedade”.

Representando o movimento estudantil, a estudante da UFBA, Bianca Paiva, vice-presidente da União Nacional dos Estudantes na Bahia, afirmou que a perseguição promovida pela ditadura constitui uma “mancha que nunca será apagada e jamais será esquecida”. Ela ressaltou que a organização dos estudantes dentro das universidades continua sendo indispensável à proteção do regime democrático. Para ela “a democracia ainda é um elo frágil e, por isso, precisa ser defendida todos os dias. Nossos direitos não nos serão dados de graça”, declarou Bianca. Na sequência, o estudante da UFBA, Lucas Romeu, representante do Diretório Central dos Estudantes da UFBA, destacou que a cerimônia recuperava” a memória daqueles que lutaram para que as novas gerações pudessem ocupar os espaços universitários.

A mesa da cerimônia reuniu o reitor da UFBA, Paulo César Miguez de Oliveira; o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia, Felipe da Silva Freitas; o ex-ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo de Tarso Vannuchi; a presidente da Associação dos Professores Universitários da Bahia – APUB Sindicato, Raquel Nery Gomes Lima; José Bonfim, representante do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais no Estado da Bahia – ASSUFBA Sindicato; Diva Santana, representante do Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia; além de lideranças estudantis, familiares dos homenageados e representantes de instituições públicas e movimentos sociais.  

Fonte: UFBA