UFRN patenteia plataforma de acessibilidade à aplicação de implantes contraceptivos

Matheus Gadea – Agecom/UFRN

Dos métodos tradicionais e comportamentais aos contraceptivos modernos, a história dos anticoncepcionais é marcada pelo avanço do conhecimento científico e pelo desenvolvimento de opções mais eficazes, seguras e adaptadas a diferentes necessidades. A chegada da pílula anticoncepcional, na segunda metade do século XX, é um dos principais marcos desse processo. Ao separar sexualidade e reprodução de maneira mais acessível, a contracepção moderna também contribui para mudanças na vida familiar, profissional e social de muitas mulheres.

A evolução dos métodos contraceptivos transformou esse cenário ao ampliar as possibilidades de planejamento reprodutivo e permitir que a maternidade pudesse ser, cada vez mais, uma escolha, e não uma consequência inevitável da vida sexual. Entretanto, mesmo com a grande variedade de métodos disponíveis, muitas mulheres ainda sofrem dificuldades em ter acesso e conhecimento sobre os anticoncepcionais mais eficazes. Foi justamente por conta dessa ineficiência na relação entre o fluxo de implantes e as mulheres que surgiu a MIA. 

Desenvolvida por Luis Felipe Barbosa, estudante de graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Sistema de Monitoramento de Inserções Anticoncepcionais (MIA) é uma plataforma criada para que profissionais da saúde e usuárias da atenção básica tenham acesso facilitado ao implante intradérmico anticoncepcional, conhecido comercialmente como Implanon.

Plataforma colabora na busca ativa das mulheres que tenham interesse em usar os implantes anticoncepcionais. Foto: projeto MIA/UFRN

Oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2025, os implantes anticoncepcionais são dispositivos que liberam, lentamente, concentrações pré-definidas de progesterona no organismo da paciente, mais especificamente de etonogestrel. A troca deve ser feita a cada três anos com um profissional especializado na área e, durante esse tempo, não é preciso nenhuma manutenção ou atenção especial. Essas características fazem o implante contraceptivo ser considerado um dos métodos mais eficazes atualmente, com uma taxa de eficácia superior a 99%, igualando-se à da laqueadura tubária, mas com a vantagem de ser um procedimento reversível. 

Desenvolvimento e aplicação da plataforma

O projeto nasceu dentro da disciplina Internato em Saúde Coletiva. A equipe de Luis foi deslocada para a Unidade de Saúde da Família (USF) Soledade II. Durante a disciplina, os estudantes têm contato com todo o sistema e a cadeia de trabalho da Unidade Básica, acompanhando os médicos, farmacêuticos e enfermeiros. Essa experiência foi fundamental para que Luis notasse um déficit no fluxo de Implanons, que não estavam chegando até as usuárias da atenção básica. Ao fim da disciplina, é necessário apresentar um projeto de intervenção, e foi então que surgiu a ideia da plataforma. Por ter como hobby o desenvolvimento de sistemas, Luis ficou responsável por elaborar o conceito inicial do projeto e desenvolver a arquitetura digital, técnica e de dados do sistema. 

“Eu tive todo um cuidado em desenvolver a arquitetura de uma forma que fosse segura, porque nós estávamos lidando com dados sensíveis. Então, fiz uma pesquisa acerca da lei geral de proteção de dados para ter certeza de que a plataforma iria cuidar desses dados — e ela cuida muito bem”, relata.

O projeto foi desenvolvido durante 2 meses. Além da programação, foi necessário um processo de capacitação dos profissionais da Unidade para o uso da plataforma, realizado por Maria Izabel Nogueira, enfermeira e doutoranda do programa em Saúde da Família pela Rede Nordeste de Formação em Saúde da Família (Renasf), vinculado à UFRN. 

Luis Felipe e equipe da USF Soledade II durante capacitação para uso da plataforma MIA. Foto: Projeto MIA/UFRN

A capacitação dos profissionais foi desenvolvida de forma gradual, participativa e integrada ao processo de trabalho da Unidade. Inicialmente, foi realizada uma apresentação da plataforma às demais equipes que compõem a USF Soledade II, com explicação sobre seus objetivos, suas funcionalidades, potencialidades e sua aplicabilidade na organização e qualificação do cuidado. Os enfermeiros e médicos receberam orientações práticas para o acesso e a utilização da ferramenta, como o preenchimento das informações, a consulta dos dados e utilização dos recursos disponibilizados pela plataforma.

Os agentes comunitários de saúde foram orientados sobre o implante e como a plataforma colabora na busca ativa das mulheres que tenham interesse em realizar o procedimento. Dentro do sistema, cada profissional da Unidade tem seu cadastro próprio e ele é limitado à sua área de atuação, com diferentes modos e níveis de acesso. 

Após a capacitação inicial, o uso da MIA foi acompanhado pela equipe, possibilitando identificar dificuldades, realizar orientações complementares e estimular a incorporação progressiva da ferramenta ao processo de trabalho. Dessa forma, a adoção da MIA não ocorreu apenas como uma introdução tecnológica, mas também como parte de um processo de comunicação, sensibilização e pactuação interna, buscando garantir que a sua utilização estivesse articulada às necessidades dos profissionais e às demandas do processo de trabalho da USF Soledade II.

Segundo a enfermeira, já é possível perceber melhorias qualitativas na organização e acompanhamento do processo de aplicação dos implantes após a utilização da plataforma. Entre as principais estão a facilitação do registro e organização das informações, o acompanhamento das etapas relacionadas à aplicação dos implantes, a possibilidade de acesso mais rápido aos dados e a redução da dependência de registros dispersos ou exclusivamente manuais. “Embora ainda seja necessário um período maior de acompanhamento para mensurar quantitativamente seus resultados e estabelecer comparações antes e depois de sua implementação, a ferramenta tem contribuído para tornar o processo mais organizado, sistematizado e seguro”.

A plataforma realiza uma mensuração contínua sobre os dados das pacientes

Patente e continuidade da MIA

Uma das preocupações em relação ao projeto era sua continuidade e uso a longo prazo. O treinamento realizado com os funcionários ainda é uma das maneiras de tirar o máximo proveito do sistema. De acordo com Luis, a parte estrutural da plataforma foi construída visando escalar para algo maior, expandindo o uso da ferramenta para outras unidades. E o primeiro passo já foi dado, com o registro oficial da MIA junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), processo realizado por meio da Agência de Inovação da Reitoria (AGIR/UFRN).

O registro do sistema vai além da proteção do software, reafirma que a atenção primária é um espaço de atuação no ensino, na pesquisa e na inovação. Ísis de Siqueira, professora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da UFRN, que concedeu apoio técnico-científico ao projeto, compartilha a importância desse processo para a comunidade acadêmica da Universidade. “O registro da MIA simboliza exatamente o que a universidade pública deve fazer, que é formar profissionais comprometidos com o SUS, produzir conhecimento a partir das necessidades do território e devolver para a sociedade soluções que melhoram o cuidado”, comenta a professora.

Para ter acesso à plataforma, as usuárias acessam um formulário digital diretamente na USF Soledade II, por meio da leitura de um QR Code disponibilizado em banners espalhados pela Unidade. Em seguida, a usuária é inserida no processo de triagem e entra em uma lista de espera. Os profissionais de saúde conseguem administrar a quantidade de implanons que já foram aplicados e agendar o planejamento de aplicação.

Fonte: Agecom/UFRN; Texto: Matheus Gadea; Foto de destaque: Cícero Oliveira; Edição: Maralice Freitas; Revisão: Rebeca Ribeiro.