A nova patente deve ter a validação clínica liberada no segundo semestre de 2026. A tecnologia demanda apenas uma gota de suor do paciente para que seja feita a análise

Você possivelmente já ouviu falar da “doença do beijo salgado”, como é popularmente conhecida a fibrose cística por conta do alto teor de sal no suor dos pacientes. A doença pode ser identificada nos primeiros dias de vida de um recém-nascido, através do Teste do Pezinho. No entanto, apesar de estar disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), esse teste às vezes não chega em todas as regiões do país por uma série de dificuldades logísticas, atrasando diagnósticos. Foi visando contornar esse problema que pesquisadores do Laboratório de Materiais Aplicados e Interfaces (Lamai), do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), patentearam a invenção de um nanocompósito (material abaixo de 100 nanômetros) para o desenvolvimento de sensores de diagnóstico da fibrose cística.
“A ideia toda partiu de a gente conseguir portabilizar esses testes para que eles conseguissem chegar a essas regiões onde eles não estão chegando”, conta a coordenadora do Lamai, professora Jacqueline Ferreira Leite Santos, sobre a pesquisa que começou em 2023 em parceria com a Fiocruz. O resultado inovador são os nanocompósitos de polipirrol (PPy) contendo nanopartículas metálicas. O PPy é um polímero orgânico condutor de eletricidade, tradicionalmente usado em sensores devido a sua estabilidade química. De acordo com a pesquisadora, a olho nu, ele parece um grão de pó preto, semelhante ao carvão.
Atualmente, a técnica usada nos laboratórios de análises clínicas conta com um equipamento que promove a precipitação do cloreto de sódio (o sal), identificado no suor dos pacientes. No entanto, esse equipamento, que mede a condutividade da solução, é um recipiente muito grande. “Ele requer um volume relativamente grande de amostras de suor, então acaba que fica muito limitado o uso. Tem que extrair do paciente esse suor, aí tem outra limitação: o paciente com fibrose cística tem pouca sudorese”, explica Jacqueline. Segundo ela, isso pode prejudicar a confiabilidade do teste.
“O que a gente fez foi formular um nanomaterial no qual nós temos no seu interior um composto que vai reagir com esse cloreto (de sódio). Colocamos uma camada de um polímero que minimiza interferências, então o teste fica mais confiável, porque outras espécies não vão responder”, esclarece a professora sobre uma das principais inovações trazidas pela aplicação da patente. “A gente conseguiu colocar isso em um dispositivo de centímetros”, comemora a descoberta da tecnologia que demanda apenas uma gota de suor para análise.
Por Isabela Daudt (UFRGS)