UFSC publica estudo inovador sobre impactos da IA na saúde indígena

O uso da inteligência artificial na saúde pode reproduzir práticas coloniais caso os povos indígenas não tenham participação efetiva na gestão de seus dados e soberania informacional.

Estudante Raiana Jacinto na Feira de Iniciação Científica da UFSC Curitibanos: trajetória profissional e acadêmica com foco na saúde das populações indígenas. Foto: Divulgação

O uso da inteligência artificial na saúde pode reproduzir práticas coloniais caso os povos indígenas não tenham participação efetiva na gestão de seus dados e soberania informacional. O alerta é da estudante Raiana Jacinto de Moura, do curso de Medicina do campus de Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que publicou o artigo Inteligência artificial para o bem de quem? Saúde e resistência Kaingang em tempos de inteligência artificial. Um ensaio autoetnográfico na revista Práxis Educativa, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Raiana é indígena da etnia Kaingang, graduada em Enfermagem pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR) e cursa Medicina na UFSC desde 2025.

Raiana Jacinto é indígena da etnia Kaingang. Foto: Divulgação

A pesquisa, submetida ao dossiê Ética e Integridade, Inteligência Artificial, Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e desinformação nas pesquisas em Humanidades, parte da trajetória pessoal e profissional da autora no campo da saúde indígena, para analisar os impactos das novas tecnologias sobre essas populações. Utilizando a metodologia autoetnográfica, o ensaio articula experiência comunitária, racismo estrutural e atuação na saúde indígena como lentes críticas para avaliar as promessas tecnológicas do setor.

“A inteligência artificial não é neutra. Se os dados que alimentam seus algoritmos não refletirem a diversidade cultural e epidemiológica das populações indígenas, e se essas populações não tiverem controle sobre o uso dessas informações, a tecnologia pode aprofundar desigualdades históricas em vez de resolvê-las. A soberania de dados é uma condição para que a inovação sirva, de fato, a todos”, sustenta a pesquisadora.

O referencial teórico do trabalho mobiliza os conceitos de colonialidade do poder, colonialismo de dados e soberania de dados indígenas, além de dialogar com a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que assegura o direito dos povos indígenas à consulta prévia, livre e informada. O artigo defende que esse dispositivo legal deve ser estendido também às políticas de saúde digital e à gestão de informações sensíveis das comunidades.

O orientador da pesquisa, professor Daniel Granada da Silva Ferreira, destaca a relevância da temática e o avanço que o artigo publicado representa para o campo de estudo. “É um avanço significativo ao trazer para o centro do debate sobre inteligência artificial a voz de quem é diretamente afetado por essas tecnologias. A autoetnografia permite que o conhecimento acadêmico se fertilize com a experiência viva e a trajetória de vida da pesquisadora, ampliando o escopo da discussão ética para além dos gabinetes e laboratórios”, ressalta.

Fonte: UFSC