A Iniciativa inverte a lógica do atendimento ao levar os profissionais até escolas e propõe estratégias para um cuidado bucal mais humanizado.

Na Universidade Federal Fluminense (UFF), o atendimento odontológico especializado é o ponto de partida para um projeto de extensão que atua como ambulatório dedicado a atender estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Compreender as particularidades desse público é fundamental para a qualificação do atendimento em saúde, já que dificuldades sensoriais, como aversão ao sabor da pasta de dente ou à sensação da escova de dentes, podem ser fatores que dificultam o processo de higiene bucal e impactam diretamente na saúde oral.
A clínica surgiu como parte da pesquisa de pós-doutorado da professora de Odontologia do Instituto de Saúde de Nova Friburgo da UFF, Bruna Lavinas Sayed Picciani, com orientação da professora do Instituto de Biologia da UFF, Diana Negrão Cavalcanti. A partir de uma parceria com a Secretária Municipal de Educação (SME) de Nova Friburgo, com intermédio da Gerência de Educação Especial e Inclusiva, o ambulatório foi estruturado inicialmente para receber estudantes da rede pública do município. Hoje, com o fortalecimento do serviço, recebe pacientes de diferentes localidades, incluindo outras cidades do Rio de Janeiro e estados como Espírito Santo e Minas Gerais.
O estudo analisa questões clínicas e sensoriais dos pacientes e propõe estratégias para qualificar o cuidado em saúde bucal. De acordo com o Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2,4 milhões de pessoas possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista no país. Em Nova Friburgo, município em que a clínica está sediada, há cerca de 500 crianças autistas matriculadas na rede pública municipal de ensino – o que demonstra a importância e necessidade do atendimento especializado na região.
“O projeto nasceu da observação da vida real. Nós começamos a atender esses pacientes e percebemos que só a capacitação técnica não era suficiente. Era preciso entender o autismo de forma mais ampla para qualificar as consultas”, explica a professora Bruna Lavinas.
A construção de uma clínica especializada
A criação do ambulatório foi motivada por uma lacuna no atendimento odontológico às crianças com TEA. Bruna percebeu a necessidade de um tratamento especializado para pessoas com autismo, especialmente abaixo dos 12 anos – faixa etária que se encontrava em um limbo entre o atendimento tradicional e as clínicas especializadas que não recebiam crianças. A resposta foi a criação de um projeto de extensão, que permitiu ampliar a assistência e aproximar a universidade da realidade das famílias. A iniciativa integra a Liga Acadêmica Multiprofissional de Apoio à Pessoa com Necessidades Específicas, projeto que reúne estudantes e profissionais do Instituto de Saúde de Nova Friburgo, e desenvolve linhas de pesquisas para acolher esses pacientes.
“Em Nova Friburgo, tive a oportunidade de criar uma clínica para atender esses pacientes. Sempre vi a necessidade de estudar mais sobre o autismo e ajudar ainda mais com a prestação de um serviço especializado”, afirma Bruna.

Na foto temos alunos, a professora Ana Cristina Borges da UFMG (que realiza este trabalho voluntário na UFF) paciente e responsável. Foto: Arquivo Pessoal.
A integração entre a teoria e a prática permitiu que o projeto avançasse e hoje o ambulatório é um espaço de apoio à população e de formação de profissionais mais preparados para lidar com a diversidade. Um dos diferenciais é a escolha da escola como local estratégico de atuação. A parceria com a SME de Nova Friburgo permitiu identificar precocemente, nas unidades escolares, os sinais de desconforto oral e orientar professores, cuidadores e familiares.
A orientadora Diana Cavalcanti explica como essa estratégia tem impacto direto na qualidade de vida dos pacientes: “Muitas vezes, um comportamento agressivo ou desregulado não é um problema comportamental, mas uma manifestação física de algo que ainda não foi identificado. A saúde bucal é uma das áreas mais negligenciadas, dores e inflamações na boca podem intensificar sintomas do autismo e levar, de forma equivocada, ao aumento de medicações psiquiátricas.”
A ida até a escola, um ambiente familiar para os alunos, é um diferencial da atuação. Muitas vezes o paciente – desregulado pela dor ou desconfortável pela ida a um ambiente estranho e novo – não chega ao consultório, o que dificulta o monitoramento da saúde oral. Nesse quesito, a manutenção da rotina também se mostra fundamental: “Quando o atendimento ocorria na escola, eu estava inserida no ambiente do paciente. Era o profissional que se deslocava até o espaço de referência da criança, e não o contrário. O vínculo prévio facilitou a transição para as consultas na universidade, já que o paciente reconhecia o profissional e se sentia mais seguro”, explica Lavinas.
Resultados da pesquisa
O cotidiano no ambulatório foi o ponto de partida para o desenvolvimento do estudo, que contou com a colaboração de 32 pacientes, de idades entre 4 e 22 anos, com TEA. Em um primeiro momento, a equipe aplicou questionários adaptados para avaliar como os participantes percebiam estímulos como luz, som, movimento da cadeira e toque oral. “A maior parte tem pavor do barulho do motor e do movimento da cadeira. Em muitos casos, ações rotineiras da prática odontológica, como deitar o paciente sem aviso ou acender o foco de luz diretamente nos olhos, eram realizadas sem a percepção do impacto sensorial que poderiam causar. Hoje, essas práticas foram reformuladas, e o atendimento passou a incorporar estratégias de adaptação do ambiente”, relata Bruna.
Os relatos das famílias revelaram desafios cotidianos, como crianças que não toleram o gosto da pasta de dente, não ficam paradas para a escovação ou apresentam seletividade alimentar, muitas vezes com alimentos altamente cariogênicos. Ouvir os familiares foi essencial para a evolução da pesquisa, que tem resultados expressivos. Em relação aos hábitos de higiene bucal, os resultados indicam que 62% dos pacientes colaboram com a escovação, sendo a prática de escovar os dentes duas vezes ao dia a mais recorrente. Apesar disso, o uso do fio dental ainda aparece como um desafio: mais da metade dos participantes não utiliza o recurso, mesmo com acompanhamento familiar. A cárie esteve presente em 50% da amostra, com predominância de quadros leves.

Momento de atendimento. Foto: Arquivo Pessoal.
Para Bruna Lavinas, esses fatores reforçam a necessidade de um olhar individualizado e sensível às particularidades sensoriais de cada paciente. “Não é falta de cuidado da família ou resistência sem motivo. Em inúmeros casos, a criança sente dor, incômodo com o sabor da pasta, com a textura da escova ou com o toque na boca. Se nós não entendermos essa realidade, acabamos por interpretar como desobediência ou teimosia, quando, na verdade, é uma resposta sensorial”, explica a pesquisadora.
A pesquisa também identificou que o ambiente odontológico pode intensificar o desconforto sensorial de pessoas com TEA. Luz intensa, ruídos de equipamentos e movimentos bruscos da cadeira são estímulos que provocam medo e ansiedade. A partir dessa constatação, o estudo propõe adaptações simples, como o controle da iluminação, a apresentação prévia dos instrumentos e o respeito ao tempo de cada paciente, como estratégias capazes de tornar o atendimento mais acessível e humanizado.
A orientadora Diana Cavalcanti destaca que as estratégias mostram que é possível qualificar o atendimento sem grandes investimentos: “Não é preciso material caro. São ações simples, baseadas em ciência, que podem ser aplicadas no serviço público e fazem muita diferença.”
Impacto social e alta demanda
A demanda por atendimentos vem crescendo rapidamente e hoje ultrapassa a capacidade da clínica, que recebe pacientes de diferentes regiões. Atualmente, o serviço opera com agenda completamente preenchida, o que evidencia a relevância da iniciativa, mas também a carência de atendimentos odontológicos especializados para pessoas com TEA.
“A procura reflete uma realidade comum às famílias de pessoas autistas, que frequentemente encontram barreiras no acesso à saúde bucal. Muitos consultórios não estão preparados para lidar com as especificidades sensoriais, e as famílias se deslocam em busca de um lugar onde seus filhos sejam acolhidos”, afirma Lavinas. Para ela, a existência da fila de espera reforça a urgência de políticas públicas que ampliem o tipo de serviço.

Profissionais e pacientes na clínica. Foto: Arquivo Pessoal.
A clínica funciona também como espaço formativo para estudantes da graduação e da pós-graduação ao contribuir para a qualificação de profissionais na área. A expectativa é que o projeto seja ampliado, atendendo um número maior de pacientes. Para Diana Cavalcanti, a ampliação representa mais do que um ganho estrutural. “Esse centro tem um potencial enorme de impacto social. Ele permite que a universidade cumpra seu papel público ao oferecer atendimento qualificado à população e, ao mesmo tempo, produzir conhecimento científico aplicado à realidade”, destaca.
Segundo a professora, iniciativas como essa mostram como ensino, pesquisa e extensão podem caminhar juntos. O ambulatório demonstra que compreender as dimensões sensoriais, clínicas e sociais desses pacientes é essencial para promover saúde e garantir um atendimento mais humano e inclusivo.
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Bruna Lavinas Sayed Picciani é Jovem Cientista do Nosso Estado e Jovem Pesquisadora Fluminense do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ. Professora Adjunta da Faculdade de Odontologia e da Pós-graduação em Odontologia de Nova Friburgo (Vice coordenadora) da Universidade Federal Fluminense. Possui graduação em Odontologia pela Universidade do Grande Rio, especialista em Estomatologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, Mestre e Doutora em Patologia pela Universidade Federal Fluminense. Pós-doutora do Programa em Ciências, Tecnologias e Inclusão, em autismo, na UFF. É editora associada da revista ABENO. Atua principalmente nos seguintes temas: doenças dermato-mucosas, língua geográfica, língua fissurada, transtornos mentais, Trissomia do 21, Autismo e Ortopedia/ortodontia em pessoas com deficiência.
Diana Negrão Cavalcanti é Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da UFF (PBMAC – 2023 – 2027). Licenciada em Ciências Biológicas, especialista em Bioquímica, mestre em Química Orgânica e doutorado em Química Orgânica. Pós doutorado em Biologia Marinha (bolsista PRODOC/CAPES – UFF), pesquisador visitante (Fiocruz), bolsista PNPD (UFF) e ex-Professora Adjunto A no Instituto do Mar da UNIFESP, campus Baixada Santista (2013). Tem projetos de pesquisa na área de Biodiversidade e na área do Autismo. Tem projetos de extensão com o tema Algas Marinhas e coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Autismo (NEPA). Foi membro fundador da Associação Caminho Azul, instituição civil sem fins lucrativos que atua nas vertentes da assistência, desenvolvimento científico e clínico do Autismo, onde exerceu a função de vice-presidente.
Por Alícia Carracena