Mulheres na Ciência: Pesquisadoras estudam o murumuru como opção à liberação sustentada de fármacos

Estudos foram feitos na Ufopa em parceria com instituições de renome nacional e internacional

Amanda Esquerdo durante intercâmbio na universidade italiana. Foto: Arquivo pessoal 

Uma palmeira muito comum na região amazônica, Astrocaryum murumuru, ou simplesmente murumuruzeiro, que é rica em ácido láurico, mirístico e oleico, está sendo estudada no Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento Farmacotécnico e Cosmético (LPDF), ligado ao Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) como alternativa sustentável aos sistemas de liberação de fármacos para uso na indústria cosmética e farmacêutica. Testes com a manteiga de murumuru como base para o desenvolvimento desses sistemas de liberação demontraram “ótimo” desempenho.  

Esse sistema de liberação de fármacos desenvolvido a partir de manteiga vegetal apresentou resultados promissores em testes laboratoriais, com excelente perfil de liberação e penetração cutânea, sem toxicidade. Os achados indicam potencial para a criação de formulações tópicas mais seguras, com menor risco de irritação e maior aceitabilidade pelos usuários. A proposta pode contribuir para tratamentos dermatológicos mais acessíveis e bem tolerados, ao mesmo tempo em que integra eficácia terapêutica e responsabilidade ambiental no desenvolvimento de novas tecnologias de saúde.

Evidências até agora: As implicações clínicas de uma liberação prolongada são explicadas pelas pesquisadoras Amanda Caroline Esquerdo da Silva e Profa. Dra. Kariane Mendes Nunes, coordenadora do LPDF. “É possível manter concentrações terapêuticas por um período mais prolongado com uma única aplicação, o que reduz a frequência de uso, melhora a adesão ao tratamento e aumenta o conforto e a segurança do paciente”, esclarece a pesquisadora Kariane Nunes.

De acordo com os estudos desenvolvidos ao longo de quatro anos e depois de 25 tentativas no laboratório, verificou-se que a estrutura de “mesofase hexagonal” foi determinante para a liberação sustentada do metronidazol. Isso significa que sistemas líquido-cristalinos são especialmente desenvolvidos para promover a chamada liberação controlada de fármacos. “Na mesofase hexagonal, sua estrutura é formada por canais cilíndricos altamente organizados, que funcionam como verdadeiros ‘reservatórios’ microscópicos para o fármaco. Essa estrutura dificulta a difusão rápida do fármaco para o meio externo, fazendo com que ele seja liberado de forma gradual e sustentada ao longo do tempo”, explica Nunes.

Sob a orientação de Kariane Nunes, a pesquisa foi desenvolvida pela jovem cientista Amanda Esquerdo, 25 anos, como resultado de cooperação técnica vigente da Ufopa com a Università degli Studi di Parma (UNIPR, Itália) e a Universidade de Brasília (UnB). A equipe acaba de publicar um estudo em um renomado veículo científico, o Journal of Drug Delivery Science and Technology, intitulado “Advancing a surfactant-free sustainable drug delivery system based on the Amazon Astrocaryum murumuru butter for topical application”, que em tradução livre significa “Avanço de um sistema sustentável de liberação de fármacos, livre de surfactantes, baseado na manteiga amazônica de murumuru (Astrocaryum murumuru) para aplicação tópica”.

“A publicação em uma revista de prestígio internacional representa o reconhecimento da qualidade científica, da originalidade da proposta e da relevância global da pesquisa desenvolvida na Amazônia. Demonstra que o grupo de pesquisa da Ufopa está produzindo ciência competitiva em nível internacional, com rigor metodológico e inovação tecnológica”, comemora Kariane Nunes.

De voluntária a pesquisadora: Com sua trajetória iniciada ao ingressar no curso de Bacharelado em Farmácia da Ufopa, foi como voluntária do Laboratório de Farmacotécnica que Amanda Esquerdo, mesmo antes de conquistar uma bolsa de pesquisa, despertou seu interesse pela transformação da matéria-prima em soluções terapêuticas. Desde então esse tema se tornou central na sua pesquisa: foi base do seu trabalho de conclusão de curso (TCC) e de sua dissertação de mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGSA), do Isco. Com o aprofundamento dos estudos na universidade italiana, concluiu que “transformar biodiversidade em conhecimento aplicado” não é só possível como também recompensador, pois eleva o potencial científico da biodiversidade regional para o patamar de fonte de inovação farmacêutica e possibilidade de valorização científica dos recursos da Amazônia.

“Tal evidência destaca a manteiga de murumuru como uma matéria-prima promissora para o desenvolvimento de formulações tópicas, capaz de aliar desempenho tecnológico, biocompatibilidade e menor risco de irritação. Mais do que um insumo regional, ela se mostra uma plataforma tecnológica com potencial real de aplicação farmacêutica e dermocosmética”. A pesquisa, de acordo com Amanda, reforça a relevância da manteiga de murumuru como excipiente funcional, e não apenas como componente veicular em produtos.

Ela acrescenta a isso o fator “resiliência científica” no processo, tanto na pesquisa quanto no reconhecimento do resultado, com a publicação do artigo na revista internacional: “Essa conquista simboliza muito mais do que um artigo publicado, demonstra que ciência de qualidade não é determinada exclusivamente por infraestrutura sofisticada, mas por consistência, relevância e comprometimento. Mostra, sobretudo, que pesquisas desenvolvidas na Amazônia, mesmo aquelas consideradas ‘simples’ em termos estruturais, podem alcançar visibilidade e reconhecimento em periódicos de alto impacto”.

Ela destacou o papel fundamental da Ufopa, especialmente pelo apoio institucional concedido por meio de edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Tecnológica (Proppit), ressaltando que o incentivo foi decisivo para viabilizar a publicação e reforçar a importância de políticas de fomento à produção científica na região.

Valorização das cadeias produtivas locais: Amplamente utilizada na indústria cosmética, principalmente para tratamento capilar, a manteiga de murumuru pode ser uma alternativa sustentável ao uso de produtos sintéticos, por exemplo. “O avanço é considerável do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico sustentável e da valorização das cadeias produtivas locais, uma vez que reduz o uso de excipientes sintéticos, que podem prejudicar o meio ambiente e a saúde pública, e diminui os gastos com pesquisa e desenvolvimento de produtos farmacêuticos e cosméticos, já que os tensoativos são adjuvantes farmacêuticos caros, além de agregar valor às matérias-primas amazônicas, contribuindo para o avanço da bioeconomia regional”, completa Nunes.

Cosméticos verdes e floresta em pé: Sendo uma tendência cada vez mais crescente entre os consumidores a utilização de produtos baseados na natureza, o resultado para a coordenadora da pesquisa é animador. “Esse resultado só nos mostra quanto podemos avançar em segurança, eficácia e sustentabilidade no que tange ao desenvolvimento de medicamentos cada vez mais verdes”, afirma Nunes, que complementa: “Além disso, ao transformar recursos naturais em produtos de alto valor agregado por meio da ciência, reforçamos o compromisso com o princípio da ‘floresta em pé’, demonstrando que é possível gerar desenvolvimento econômico sem abrir mão da conservação ambiental”.

Além da relevância científica e da sustentabilidade destacadas pela pesquisadora Kariane, o diretor de Pesquisa da Proppit, Bruno Batista, ressalta quesitos estratégicos dos resultados dessa pesquisa, por exemplo: química verde, colaboração internacional, alternativa a insumos importados, protagonismo regional, inovação em saúde e inclusão de comunidades tradicionais. Segundo Batista, “o estudo prova que ingredientes naturais da região podem substituir surfactantes e excipientes sintéticos importados, fomentando uma base tecnológica local independente e ecologicamente correta”, isso tudo somado à promoção da valorização da sociobiodiversidade e da contribuição para a inclusão socioeconômica de comunidades da floresta que trabalham com a extração sustentável dessas sementes.

Dra. kariane Nunes (à esquerda) e a mestra Amanda no laboratório de Fármacos da Ufopa. Foto: Lenne Santos. Fevereiro de 2026.

O que ocorre a partir de agora: Um pedido de patente e o aprimoramento da formulação. Esses são os próximos passos da pesquisa, de acordo com Kariane Nunes; ela acrescenta ainda que o foco neste segundo momento será a otimização da estabilidade, da eficácia e da reprodutibilidade do sistema desenvolvido. “Paralelamente, pretendemos avançar com o depósito de pedido de patente, visando à proteção da tecnologia e à viabilização de uma futura transferência tecnológica. A partir dessa etapa, abre-se a possibilidade de estabelecer parcerias com a indústria farmacêutica ou cosmética, ampliando as perspectivas de aplicação prática do produto e potencial escalonamento para testes clínicos, conforme a maturidade tecnológica alcançada”.

Lenne Santos – Ascom/Ufopa