Ufal instala Banco Vermelho em ato simbólico de combate ao feminicídio

Ação realizada na Reitoria integra campanha nacional prevista em lei e convida comunidade acadêmica à reflexão e ao enfrentamento da violência contra a mulher

Por Ryan Charles – estudante de jornalismo / Fotos Renner Boldrino
10/03/2026 13h32 – Atualizado em 10/03/2026 13h56

No ano de 2025, de acordo com o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 1.500 mulheres tiveram suas vidas ceifadas pelo feminicídio no Brasil, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. E foi pensando nisso que, na segunda-feira (9), um dia após a celebração do Dia Internacional da Mulher, a Universidade Federal de Alagoas integrou a ação global dos Bancos Vermelhos, que vem como um convite à reflexão e a mudanças. O ato de instalação aconteceu no hall da Reitoria, no Campus A.C. Simões.

A ação nasceu na Itália em 2016 e atualmente integra a campanha nacional prevista pela Lei 14.942/2024, que incentiva a instalação de bancos vermelhos em espaços públicos com o tema “Sentar e refletir. Levantar e agir”, além de divulgar o canal de denúncia 180, um símbolo educativo, de reflexão e em memória àquelas que partiram vítimas desse crime. A instalação do banco vermelho aconteceu simultaneamente em 30 universidades federais Brasil afora, e a Ufal foi a primeira de Alagoas a ter essa iniciativa, atendendo ao chamado da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

O ato simbólico começou com a apresentação musical com o duo de flauta e violino, formado pela professora Ziliane Teixeira e a violista Iannara Farias, ambas do curso de licenciatura em Música da Ufal. Também contou com a participação de representantes da comunidade universitária e de instituições convidadas. A frente de honra da cerimônia foi composta pelo reitor Josealdo Tonholo, a vice-reitora Eliane Cavalcanti, a diretora da Faculdade de Direito da Ufal, Elaine Pimentel, a procuradora-chefe substituta do Ministério Público Federal em Alagoas, Raquel Melo Teixeira, a chefe da Patrulha Maria da Penha, major Íris Dayana, e a integrante da Marcha Mundial das Mulheres na Ufal, a estudante Beatriz Maciel.

A vice-reitora explicou que a Universidade se unir ao ato simbólico representa a união que deve existir para extinguir esses casos e alcançar o tão sonhado feminicídio zero e que é um convite a toda a comunidade universitária para refletir sobre as muitas frentes de luta que as mulheres enfrentam diariamente, seja por meio de políticas públicas, seja por meio da luta cotidiana por equidade, igualdade e respeito.

“Alguém pode perguntar: mas por que um banco vazio, pintado de vermelho? Um banco vazio em uma praça reflete a história de muitas pessoas que passaram por ali. Já um banco vazio dentro de uma instituição como a Universidade Federal de Alagoas nos leva a uma reflexão ainda mais profunda. Esse banco vazio representa uma vida que foi retirada, seja a vida de uma mulher trabalhadora, mãe, filha, alguém que ajudava a construir este estado diariamente e que, repentinamente, teve sua vida tirada por um ato de violência”, afirmou.

O reitor Josealdo Tonholo disse que o banco não é apenas um item de mobiliário urbano, ele precisa provocar indignação. “O banco tem o simbolismo de um marco visual em memória das vítimas e funciona como um ponto permanente de alerta sobre tudo o que tem acontecido e que não gostaríamos que acontecesse com nossas meninas e mulheres, inclusive aqui na Universidade. Cada um desses números representa uma família devastada. Cada número significa que existem pessoas que gostariam de continuar gritando, mas que não poderão mais fazer uso de sua voz, porque foram silenciadas. Ainda assim, sabemos que precisamos avançar muito para reverter a realidade que vemos na sociedade e que, muitas vezes, acaba sendo refletida dentro da própria universidade”, ressaltou.

A estudante Beatriz Maciel, que integra a Marcha Mundial das Mulheres na Ufal, fez um relato sobre a situação de vulnerabilidade das mulheres dentro do ambiente acadêmico e fez um apelo para a gestão buscar ações concretas de apoio e amparo às alunas, servidoras e terceirizadas. Vários estudantes levaram cartazes com reivindicações em busca de melhorias da infraestrutura da Universidade, como mais iluminação e segurança no campus.

A professora Elaine Pimentel explicou que a luta pelos direitos das mulheres sempre foi árdua e relembrou até o início das lutas pela criminalização do feminicídio. “A chegada do feminicídio ao Código Penal também enfrentou resistência. Houve quem perguntasse: ‘Para que feminicídio? Já não existe o homicídio?’ Diziam que o homicídio já abarcava tudo. Mas o fato de destacar, no Código Penal, a condição de ser mulher incomoda muitas pessoas. Eu mesma, que sou pesquisadora do sistema prisional, observo que homens presos por feminicídio muitas vezes não são considerados perigosos. Dizem: ‘eles só mataram mulheres’. Por isso, acabam sendo colocados em espaços junto de pessoas presas por crimes considerados menos graves. Isso revela o desvalor que ainda se atribui à vida de uma mulher, e isso é muito grave”, destacou a diretora da FDA.

Ela ainda exclamou que o feminicídio é o ponto mais extremo da violência, porque elimina a vida. Mas existem muitas outras formas de minar a vida de uma mulher sem necessariamente matá-la, e falar de feminicídio é falar de tudo isso.

“E o que eu espero é que esse momento seja um divisor de águas, no sentido de mostrar à comunidade acadêmica que a Universidade Federal de Alagoas acolhe todas as mulheres que aqui estudam, trabalham ou utilizam os nossos serviços. Este momento não se encerra aqui. Ele é simbólico. E esse símbolo nos lembra que ainda temos muito a fazer”, finalizou.

O ato de instalação da campanha pelo feminicídio zero teve apoio da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e, agora, o Banco Vermelho fica permanentemente na Reitoria para incentivar mais mulheres a buscarem ajuda em casos de violência. Vale ressaltar que a denúncia pode ser um caso pessoal ou de outra pessoa, e todos os crimes contra a mulher podem ser denunciados no número 180 ou pelo WhatsApp 061 99610-0180. A denúncia pode ser anônima.