
A formação de médicos é um dos pilares centrais para a redução das desigualdades no acesso à saúde, especialmente em regiões historicamente marcadas pela escassez e má distribuição desses profissionais, como é o caso do Acre. Em um contexto em que a densidade de médicos por habitante permanece abaixo da média nacional e com forte concentração na capital, torna-se fundamental compreender não apenas a oferta de vagas, mas, sobretudo, quem ocupa essas vagas e qual a capacidade de fixação desses profissionais no território. É nesse cenário que o curso de Medicina da Universidade Federal do Acre assume papel estratégico, não apenas como espaço de formação acadêmica, mas como instrumento de política pública voltado à interiorização e à redução das desigualdades regionais na área da saúde.
Acre combina baixa oferta de médicos e forte desigualdade territorial, com interior muito abaixo da média nacional
Organização Mundial da Saúde não estabelece um número único e rígido universal de médicos por habitante como padrão obrigatório. No entanto, há referências amplamente utilizadas em estudos e políticas públicas. O Indicador mais citado estipula 1 médico para cada 1.000 habitantes (1:1.000). Este é um parâmetro mínimo frequentemente adotado como referência internacional básica.
A distribuição de médicos no Acre revela um quadro estruturalmente desfavorável quando analisada no contexto nacional. De acordo com a Demografia Médica no Brasil 2025, contidos na tabela a seguir, o estado apresenta densidade de profissionais abaixo da média do país, que é de 3,08 médicos por mil habitantes, posicionando-se entre as unidades da Federação com menor oferta relativa. Esse resultado reflete uma característica típica da Região Norte, onde a disponibilidade de médicos permanece inferior ao padrão nacional, evidenciando limitações históricas de atração e fixação desses profissionais.

Quando se observa apenas o interior, o diagnóstico se torna ainda mais claro. O Acre registra cerca de 0,80 médico por mil habitantes fora da capital — um nível ligeiramente superior à média do interior da Região Norte (0,75), mas muito distante da média brasileira (1,90). Eram somente 392 médicos para 493 mil habitantes.
Ao mesmo tempo, o índice de concentração entre capital e interior (IDCI) atinge 3,92, acima da média nacional (3,66), indicando que Rio Branco concentra quase quatro vezes mais médicos por habitante do que o restante do estado. Indicando que a capital concentra 392% mais médicos por 1.000 habitantes do que o restante dos municípios. Em síntese, o Acre combina baixa oferta total com forte concentração urbana, configurando um padrão de escassez e desigualdade que limita o acesso à assistência médica, especialmente nas áreas mais afastadas.
Portanto, a criação do curso de Medicina na Universidade Federal do Acre, em 2002, representa um marco estratégico para enfrentar as desigualdades históricas na relação médico por habitante no estado. Em um contexto em que a região Norte sempre apresentou densidade de médicos inferior à média nacional, a formação local de profissionais passou a cumprir papel essencial ao ampliar a oferta de médicos com maior probabilidade de fixação no próprio território. O curso iniciou suas atividades ofertando 40 vagas anuais. A partir de 2014 ampliou de 40 para 80 vagas anuais, número de entrantes que permanece até hoje.
É importante lembrar, que a formação de médicos pelo curso de Medicina da Universidade Federal do Acre tem importância estratégica para o fortalecimento do sistema de saúde regional, sobretudo porque aumenta significativamente a probabilidade de fixação desses profissionais no próprio território. Diferentemente de médicos formados em outras regiões — que muitas vezes não permanecem no estado após a graduação —, os estudantes locais tendem a possuir vínculos familiares, sociais e culturais com a região, além de maior familiaridade com os desafios sanitários da Amazônia.
Ao longo de sua trajetória institucional, a Universidade Federal do Acre adotou distintos modelos de ingresso em seus cursos de graduação, acompanhando tanto mudanças internas de concepção quanto a reconfiguração das políticas nacionais de acesso ao ensino superior. Vamos analisar, especificamente, as formas de acesso ao curso de medicina, desde 2002 até 2026, especificando, detalhadamente as 5 mudanças ocorridas no passar do tempo.
Início: Seleção própria pela UFAC/COPEVE (2002 a 2011)
Ni início, que perdurou por muitos anos, predominou o vestibular próprio, organizado pela Comissão Permanente de Vestibular (COPEVE), órgão responsável pela elaboração, coordenação e aplicação dos processos seletivos da universidade. Esse modelo marcou a fase inicial de expansão da graduação e foi a forma de ingresso do curso de Medicina, cuja oferta passou a integrar o vestibular da instituição em 2002, quando a criação do curso foi anunciada como uma das principais novidades daquele certame.
A primeira inflexão relevante nesse modelo ocorreu em 2010, quando a UFAC aderiu ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de forma ainda parcial. Naquele momento, o exame passou a ser utilizado como processo de seleção para ingresso nos cursos de licenciatura em Filosofia e em Música, além de servir para o preenchimento de vagas remanescentes do Vestibular 2011. Essa etapa representa uma fase de transição, sem mudanças no curso de medicina, a universidade começou a incorporar o exame nacional sem, contudo, abandonar de imediato o vestibular próprio como mecanismo central de acesso.
O gráfico a seguir, evidencia uma mudança gradual, ainda que oscilante, na participação de estudantes acreanos no curso de Medicina ao longo do período 2002–2012. Observa-se que, nos anos iniciais, a presença local era bastante reduzida (15% em 2002), com forte predominância de alunos de outros estados, refletindo desigualdades de acesso e competitividade, mesmo com vestibular próprio. Ao longo da década, porém, há tendência de crescimento da participação acreana, com picos mais expressivos a partir de 2009, culminando em 32,6% em 2012. Apesar das variações anuais, o movimento geral indica avanço leve na inserção de estudantes locais.

Primeira mudança: O uso do ENEM (2012)
A mudança estrutural veio em 2011, quando o Conselho Universitário aprovou a adesão integral ao Enem. Com isso, a UFAC extinguiu o vestibular tradicional como forma regular de ingresso, de modo que os candidatos interessados em entrar na universidade em 2012 passaram a depender obrigatoriamente da realização do Enem em 2011. Esse momento pode ser compreendido como a primeira grande mudança dos processos seletivos da instituição: a substituição do vestibular próprio por um modelo nacionalizado, centrado na nota do exame federal.
O ENEM é a principal prova educacional do Brasil, criada pelo governo federal para avaliar o desempenho dos estudantes ao final do ensino médio, como também, serve como porta de entrada para o ensino superior. O processo de seleção feito exclusivamente pelo Enem, corresponde ao ano de 2012. Os resultados, dados pelos percentuais de alunos do Acre e de outros estados aprovados, constam no gráfico a seguir:

Segunda mudança: Seleção ENEM com SiSU (2013 a 2018)
Na sequência, em 2012, o Conselho Universitário aprovou formalmente a adesão ao Sistema de Seleção Unificada (SiSU), para que a seleção dos candidatos às vagas dos cursos de graduação da UFAC passasse a ocorrer com base nas notas obtidas no Enem. Ainda que haja registros de uso do Enem/SiSU já em 2011 para vagas remanescentes, foi a partir dessa decisão de 27 de junho de 2012 que o sistema unificado se consolidou como modelo institucional regular, materializando-se de forma mais nítida no ingresso de 2013. Inaugura-se, assim, uma terceira mudança: a da consolidação do binômio Enem/SiSU como principal via de acesso à graduação da universidade.
O SiSU é o sistema informatizado do governo federal que usa a nota do ENEM para selecionar estudantes para universidades públicas. O sistema funciona quando o estudante faz o ENEM e com a nota escolhendo até duas opções de curso em universidades públicas e o sistema seleciona automaticamente com base na nota do ENEM e na concorrência (nota de corte). Começou a ser adotado pelo curso de medicina da UFAC a partir de 2013.
O gráfico a seguir revela uma inflexão importante com a entrada do curso de Medicina no SiSU, evidenciada pela queda abrupta da participação de acreanos em 2013 (apenas 4,3%), resultado da ampliação da concorrência nacional proporcionada pelo uso da nota do ENEM. Nos anos seguintes, observa-se uma recuperação gradual da presença local, atingindo 21,6% em 2016, ainda que com oscilações posteriores. Esse movimento indica que, embora o SiSU tenha inicialmente reduzido o acesso de estudantes da região, ao expô-los a uma competição mais ampla e desigual, mostrando uma ampla predominância de alunos de outros estados, reforçando o desafio de garantir maior inclusão regional em cursos altamente concorridos como Medicina.

Terceira mudança: Seleção ENEM, com SiSU e com o Bônus Regional (2019 a 2024)
Em 2019, a partir da proposta da gestão superior da UFAC, o Conselho Universitário, implantou o Bônus Regional para a seleção de alunos de seus cursos superiores. O Bônus consiste em um acréscimo percentual na nota do candidato no ENEM, utilizado no processo seletivo via SiSU. O bônus regional busca enfrentar problemas estruturais, especialmente relevantes no Norte e Nordeste do país. Visa reduzir desigualdades educacionais regionais; aumentar o acesso de estudantes locais ao ensino superior; formar profissionais que permaneçam na região e evitar que vagas sejam ocupadas majoritariamente por candidatos de outras regiões mais competitivas.
A política gerou discussões importantes, com muitos alunos de fora do estado ingressando com recursos judiciais, alegando, principalmente, que o bônus regional fere o princípio da igualdade no acesso. Praticamente todos os recursos impetrados por esses estudantes tiveram êxito em suas demandas, seja em primeira ou segunda instância, o que forçou a UFAC a matriculá-los no curso.
O gráfico a seguir evidencia uma mudança estrutural relevante com a adoção do bônus regional pela Universidade Federal do Acre, ao elevar de forma consistente a participação de estudantes acreanos no curso de Medicina. Observa-se que, já em 2019, a presença local supera 40%, avançando gradualmente até atingir a paridade em 2022 (50%) e, posteriormente, maioria expressiva em 2023 (58%) e 2024 (55,4%). Esse movimento contrasta fortemente com o período anterior, marcado pela predominância de alunos de outros estados, indicando que o bônus regional foi decisivo para ampliar o acesso de estudantes da própria região, corrigindo parcialmente as desigualdades competitivas impostas pelo modelo nacional do SiSU. O bônus mostrou ser um instrumento eficaz de política pública, com potencial impacto positivo na formação de médicos com maior probabilidade de fixação no estado e, consequentemente, na melhoria da oferta de serviços de saúde no Acre.

Quarta mudança: Seleção ENEM, sem SiSU e com o Bônus Regional (2025)
Em 2025, diante da decisão do MEC de retirar o bônus regional do termo de adesão ao SiSU, a Administração Superior da UFAC, voltou a atuar para assegurar a permanência dessa ação afirmativa e, consequentemente, ampliar o acesso dos acreanos ao curso de Medicina. Submeteu a proposta ao Conselho Universitário, que aprovou a retirada do curso de Medicina do SiSU, a adoção de processo seletivo próprio, utilizando as notas do ENEM, mantendo o bônus regional.
Importa destacar que a decisão do MEC, em 2025, decorreu de parecer jurídico elaborado com base em entendimento recente do STF contrário ao uso de critérios de diferenciação territorial no sistema unificado, comprometendo a segurança jurídica do processo seletivo nacional.
Nesse sentido, o curso de medicina da UFAC sofreu uma inflexão importante no processo seletivo para 2025, quando a UFAC decidiu retirar Medicina do SiSU e instituir um processo seletivo específico, regulado pelo Edital Prograd nº 07/2025. Nesse novo arranjo, a seleção deixou de ocorrer pelo sistema unificado nacional, mas continuou baseada nas notas do Enem 2024, com aplicação de pesos por área, reserva de vagas segundo a legislação vigente e manutenção do bônus regional de 15% para candidatos que cursaram integralmente o ensino médio nas áreas abrangidas pela política institucional. O edital ofertou 80 vagas, sendo 40 para o primeiro semestre e 40 para o segundo semestre letivo de 2025.
O gráfico de 2025 a seguir, reforça e aprofunda a tendência observada no período 2019–2024, evidenciando que apolítica pública funcionou.

A combinação entre ENEM e bônus regional, agora sem a intermediação do SiSU, ampliou ainda mais o acesso de estudantes acreanos ao curso de Medicina da Universidade Federal do Acre. A participação local atinge 62,2%, o maior percentual de toda a série, superando inclusive os níveis já elevados dos anos imediatamente anteriores, embora, ainda persistiam a judicialização dos demandantes de outros estados.
Quinta mudança: Seleção Própria, sem SiSU e com o Bônus Regional (2026)
Mesmo com o sucesso da seleção de 2025, a intensa judicialização do bônus regional, movida sobretudo por candidatos de outros estados com base em decisão recente do STF, manteve forte pressão sobre a política adotada pela UFAC. Uma nova solução institucional foi construída. A Administração Superior propôs e o Conselho Universitário aprovou a realização de um exame vestibular próprio para o curso de medicina. Sem ENEM, sem SiSU e mantendo o bônus. Política baseada na Autonomia das Universidades, constante na carta constitucional.
A nova solução institucional construída pela UFAC foi firme e insistente. Não foi apenas uma decisão administrativa foi, antes de tudo, a defesa inegociável de que o curso de medicina precisava — e precisa — estar a serviço da realidade do Acre, da sua gente e das necessidades do estado.
A proposta era ousada. Um vestibular próprio é caro, mas a Reitora foi buscar o recurso para realizá-lo e conseguiu, com emenda do senador Sérgio Petecão, que mais uma vez ajudou a UFAC.
O gráfico a seguir, representa o ponto culminante de uma sequência coerente de decisões institucionais adotadas pela Universidade Federal do Acre para manter a política de ação afirmativa do bônus regional e assim, ampliar o acesso de estudantes locais ao curso de Medicina. Após a introdução do bônus regional, que já havia elevado progressivamente a participação de acreanos, e da posterior saída do SISU — reduzindo a pressão da concorrência nacional —, a adoção de um vestibular próprio consolidou esse movimento.
O resultado é expressivo: 96% dos ingressantes são acreanos, indicando uma mudança estrutural no perfil de acesso ao curso. Esse desempenho sugere que o conjunto dessas políticas foi altamente eficaz em corrigir desigualdades de origem, fortalecendo a formação de médicos da própria região e ampliando, de forma consistente, o potencial de fixação desses profissionais no estado, com impactos positivos esperados sobre a oferta de serviços de saúde no Acre.

É importante observar que, do total de alunos inscritos no vestibular com ingresso em 2026, dos 5.429 inscritos efetivados, 5.094 (94%) são estudantes acreanos e somente 335 (6%) de outros estados. Dentre estes de outros estados, 48 são de municípios do Amazonas, alcançados pelo bônus regional. Em síntese, a decisão de realizar um vestibular presencial mostrou-se acertadíssima, pois, mesmo que o bônus fosse judicialmente cassado, não impediria a manutenção de um percentual expressivo de estudantes acreanos no curso de Medicina da UFAC.
Sinteticamente essa é a evolução dos processos seletivos da UFAC em cinco grandes mudanças históricas: o início marcado pelo vestibular próprio organizado pela COPEVE; uma primeira mudança, depois de uma transição com adesão do Enem; uma segunda, caracterizada pela adoção integral do Enem, e a consolidação do SiSU como mecanismo regular de ingresso; uma terceira, coma a doção do bônus regional, uma quarta que combina o Enem, sem adesão ao SiSU e com o bônus e a quinta, a mais recente, para uma seleção própria institucional, ainda baseada no desempenho no exame nacional, mas com regras específicas definidas pela própria universidade.
A trajetória analisada demonstra que a ampliação do acesso de estudantes acreanos ao curso de Medicina da UFAC não foi resultado de um único fator, mas de uma sequência consistente de políticas institucionais orientadas por um objetivo claro: formar médicos comprometidos com a realidade local. A adoção do bônus regional, a saída do SiSU e, por fim, a implementação de um vestibular próprio revelam uma estratégia progressiva e bem-sucedida, culminando em uma mudança estrutural no perfil dos ingressantes. Os resultados de 2026 evidenciam que é possível alinhar autonomia universitária, equidade no acesso e necessidades regionais, fortalecendo a formação de profissionais com maior probabilidade de fixação no estado. Mais do que ampliar vagas, a experiência da UFAC mostra que políticas de seleção bem desenhadas podem ser decisivas para transformar a oferta de saúde e reduzir desigualdades históricas no Acre.
Fonte: AC 24 horas