Por Georgina Gonçalves dos Santos, Reitora da UFRB e Vice-Presidente da Andifes.

As universidades públicas sempre ocuparam papel decisivo nos grandes processos de transformação social. Crise climática, avanço das desigualdades, conflitos geopolíticos e ameaças à democracia, nos colocam a tarefa de fortalecer a cooperação entre universidades brasileiras e africanas. O que era apenas uma agenda acadêmica torna-se uma necessidade estratégica para o futuro do Sul Global.
O 1º Fórum de Reitores Brasil-África, realizado em Brasília, simboliza exatamente esse novo momento e nos traz tarefas e responsabilidades. Mais do que um encontro institucional, trata-se da construção de uma agenda comum entre universidades comprometidas com soberania científica, desenvolvimento sustentável, inclusão social e produção de conhecimento conectado às necessidades reais de nossos povos.
Mas é preciso dizer que já nos primeiros anos do século XXI, aprofundamos, de maneira consistente, nossos compromissos e entendimentos com os países e universidades africanas. Em nossa agenda contemporânea, a abertura de novas embaixadas, a intensificação dos fluxos comerciais, a cooperação técnica nas áreas da agricultura e saúde, mas também, o estreitamento de ações na educação, notadamente na educação superior, acontece com a intensificação de programas como a vinda de estudantes dos convênios PEC – G e PEC-PG, ou ainda com a criação da Universidade de Integração Internacional Luso Afro-Brasileira, a UNILAB.
Na tessitura de redes de cooperação técnica e na produção e reprodução de conhecimento científico, destacamos a criação de linhas e redes pesquisa na área das ciências agrárias e ambientais em universidades públicas no campo da saúde, da pesquisa epidemiológica, doenças tropicais e vigilância genômica, ou ainda, o que realizamos atualmente no campo das humanidades e das artes, pressionando conceitos metodológicos e teóricos, através da constituição de ferramentas analíticas de base interseccional e promovendo intercâmbio social artístico e cultural.
Nós, brasileiros, somos um povo que não esquece, um povo que recusa a opressão, e que, por sabedoria e memória insiste em resistir. O nosso vínculo com a África é bem anterior: estamos ligados pela dolorosa experiência da travessia transatlântica que nossos ancestrais foram obrigados a realizar entre os séculos XVI e XIX. O tráfico, estimado de 12, 5 milhões de pessoas, dentre estas 4 a 5 milhões destinadas ao Brasil, é considerado o mais grave crime produzido pela humanidade e que permanece marcando, ainda hoje, as condições de vida de pessoas como nós de pele negra em todo o mundo.
Longe de ser um evento isolado da história recente, a descolonização africana, ao longo do século XX, representa uma ruptura direta e corajosa com quatro séculos de dominação europeia. Existe um nexo causal evidente, uma linha contínua que une a exploração mercantilista do século XVI, a fragmentação territorial criminosa da partilha no século XIX e a posterior libertação do continente, que celebramos com orgulho neste Dia da África. Esta trajetória secular não expõe apenas as marcas profundas da acumulação capitalista e da violência colonial; ela testemunha, acima de tudo, emergência da agência política, da resiliência e da soberania dos povos africanos na geopolítica global. A liberdade que hoje comemoramos não foi uma concessão, mas uma conquista histórica contra estruturas de opressão que tentaram, sem sucesso, silenciar a voz e o destino de um continente inteiro.
Reconhecemos que as desigualdades sociais, os persistentes fenômenos da exclusão e do racismo são um espólio reiterativo que ainda estruturam as sociedades contemporâneas. Se o racismo opera de forma molecular e difusa, sua desestruturação requer uma ação igualmente profunda, que combine a disputa por representação política com uma radical transformação epistêmica e cultural.
Assim, nos resta conferir para cada uma, cada um de nós, um compromisso tributário com a democracia, uma obrigação com o não esquecer, atitudes necessárias para pavimentar a construção da memória da colônia – ou seja, é preciso resgatar a história dos colonizados, a história das violências ocultadas, das resistências e das dinâmicas cotidianas que a história oficial tentou e ainda tenta apagar. É preciso recusar um olhar idílico sobre o passado adotando uma atitude que contribua para construir uma postura firme de crítica ao presente.
Para isso é necessário questionar as estruturas derivadas daquele período e desnaturalizar a ordem que reconhecemos como legado da colonialidade que herdamos. Precisamos combater ainda com mais vigor tudo que signifique opressão e, como nos ensina Lélia Gonzalez fraturar a linguagem do senhor. Substituindo o “pacto do silêncio” e da neutralidade burocrática por uma governança que reconheça a diversidade cultural e epistêmica como critério de excelência e legitimidade democrática. E, evidentemente, implementar mecanismos de redistribuição, desnaturalizando o mérito, construindo alternativas para a realização da justiça, social, espacial e ambiental. Por fim, é preciso promover mecanismos de organização coletiva que produzam a ruptura dos pactos coloniais.
Nossa intenção é a de criação de redes de conhecimento solidário, que reconhecem que a memória viva opera por camadas em uma disputa continua de ressignificação do presente. Por isso um encontro entre universidades africanas e brasileiras, alcança um significado profundo: reafirmar o compromisso e nossa disposição institucional e comunitária de superar o passado colonial, aprendendo com o exemplo, deste passado que a história é viva, a história é insubordinada. E, a exemplo do adinkra Sankofa, levar em conta o passado nos faz ter disposição para mudar e inventar o presente. Como disse o martinicano Aimée Césaire: acreditar em nosso encontro é elevar o passado a patrimônio. A história de uma comunidade cuja experiência singular de deportação, ancora nossas lembranças e reconhecimento de que nossas marcas, as marcas da negritude, são também as marcas de uma tomada de consciência da força da diferença, da diversidade, da inclusão, da memória e da solidariedade.
As universidades federais brasileiras responderam ao convite e estão comprometidas com a celebração de parcerias e redes que afrontem os problemas e questões que afligem nossos povos reconhecendo, trocando, construindo formação, técnicas e conhecimentos que contribuam com soluções e novos olhares sobre os velhos problemas. Alicerçando, dessa forma, as bases de uma democracia duradoura que caminha junto com a ciência e os saberes ancestrais. Não existe desenvolvimento sustentável sem combate às desigualdades. Não existe inovação verdadeira sem diversidade. Não existe soberania científica sem investimento consistente em universidades públicas e educação popular.
Fortalecer a cooperação acadêmica entre Brasil e África é também defender um modelo de universidade comprometido com transformação social, justiça e emancipação. As universidades públicas têm capacidade de formular respostas para alguns dos maiores desafios do nosso tempo. Mas, para isso, precisam atuar em rede, construir alianças internacionais e reconhecer que o futuro do conhecimento será necessariamente mais plural, mais diverso e mais conectado ao Sul Global.