
A reitora Ana Beatriz de Oliveira (UFSCar) foi eleita presidenta da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) para a gestão 2026-2027, durante a 212ª Reunião Ordinária do Conselho Pleno, realizada em 22 de julho, na Universidade Federal de Roraima (UFRR). A nova presidenta sucede o reitor José Geraldo Ticianeli (UFRR).
Nesta entrevista ao portal da Andifes, a reitora apresenta as prioridades da nova gestão, fala sobre os desafios das universidades federais, a importância da produção de conhecimento para o desenvolvimento nacional, a ampliação da participação das mulheres nos espaços de liderança e o papel da associação na defesa da educação superior pública. Confira:
Quais as prioridades da sua gestão?
A Andifes vive um momento muito importante. Temos um ambiente de maior diálogo com o Governo Federal e passamos por avanço na rede de universidades federais, que envolve também o CEFET-RJ e CEFET-MG: início do processo de recomposição orçamentária, ampliação de cargos e funções, novo ciclo de ampliação de cursos, investimentos em infraestrutura a partir do Novo PAC e o fim da lista tríplice. Mas também sabemos que há desafios estruturais que permanecem, como a previsibilidade e sustentabilidade orçamentária das Instituições. Por isso, nossas prioridades são muito claras.
Em primeiro lugar, fortalecer a própria Andifes na consolidação de um espaço de construção coletiva. Queremos seguir ampliando a participação das reitoras e dos reitores, qualificando os processos de diálogo interno e tornando nossa atuação cada vez mais transparente e articulada.
Ao mesmo tempo, vamos manter uma agenda firme em defesa da autonomia universitária, do financiamento das universidades federais e CEFETs e da consolidação de políticas de Estado para a educação superior, a ciência e a inovação. Políticas que garantam inclusão e a permanência de estudantes na Universidade.
Também queremos ampliar a capacidade de incidência da Andifes no debate público. As universidades e CEFETs produzem conhecimento estratégico para o país e precisam estar presentes nas grandes discussões nacionais, contribuindo com evidências, propostas e soluções para os desafios brasileiros.
As universidades federais são muito diversas em tamanho, perfil e contexto regional. Como fortalecer a atuação conjunta do sistema, respeitando essas diferenças?
Essa diversidade não é um problema. Ela é uma das maiores riquezas do sistema federal. Cada universidade responde às necessidades do território em que está inserida, produz conhecimento em áreas distintas e estabelece relações muito próprias com a sociedade. É justamente essa diversidade que faz com que, juntas, as universidades federais consigam atender ao Brasil em toda a sua complexidade.
O papel da Andifes não é uniformizar as instituições, mas construir consensos a partir dessa pluralidade. Precisamos identificar agendas comuns, respeitando as diferentes realidades.
Costumo dizer que cada universidade produz capacidades onde está enraizada. Quando conseguimos articular essas capacidades, fortalecemos não apenas cada instituição, mas a capacidade nacional de produzir conhecimento, inovação (tecnólogica e social), desenvolvimento e defesa de sua soberania.
Na sua opinião, qual deve ser o papel das universidades federais na produção de conhecimento estratégico para o desenvolvimento nacional?
Vivemos um momento em que o conhecimento passou a ocupar o centro das disputas globais. A competitividade das nações depende cada vez mais da sua capacidade de produzir ciência, formar pessoas qualificadas e transformar conhecimento em inovação. No Brasil as universidades federais são protagonistas desse processo.
Mas eu gosto de destacar que conhecimento estratégico não significa apenas tecnologia de ponta. Também envolve saúde pública, educação, segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas, inteligência artificial, cultura, desenvolvimento regional e redução das desigualdades. Elaboração e implementação de políticas públicas que atuem na transformação da nossa sociedade. As universidades têm justamente essa característica singular: conseguem reunir diferentes áreas do conhecimento para enfrentar problemas complexos.
O Brasil dificilmente construirá um projeto consistente de desenvolvimento sem reconhecer as universidades públicas como parte da infraestrutura estratégica do país.
A liderança feminina tem sido uma pauta constante da Andifes. Como a senhora avalia os avanços alcançados nos últimos anos e quais ações considera prioritárias para ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão das universidades federais?
Nós avançamos muito, e isso merece ser reconhecido. Hoje há mais mulheres ocupando espaços de liderança nas universidades e na própria Andifes. Isso produz mudanças importantes na forma de conduzir as instituições e amplia a diversidade de perspectivas nos processos de decisão. Mas ainda estamos longe da igualdade.
As mulheres continuam sub-representadas em muitos espaços de poder e enfrentam desafios que muitas vezes permanecem invisíveis, como a sobrecarga de trabalho, os vieses de gênero e, em alguns casos, a violência política. Temos que considerar também as interseccionalidades que atravessam a questão de gênero. As desigualdades se expressam de formas distintas quando gênero se cruza com raça, etnia, deficiência, identidade de gênero e outras dimensões da diversidade. Isso exige que nossas políticas sejam capazes de reconhecer essas diferentes realidades e promover oportunidades efetivamente inclusivas. Precisamos combinar mudanças culturais com ações concretas: fortalecer redes de apoio entre gestoras, ampliar oportunidades de formação para lideranças femininas, produzir dados que orientem políticas institucionais e criar ambientes cada vez mais seguros e inclusivos para que mais mulheres possam assumir posições de direção.
Não se trata apenas de justiça. Instituições mais diversas tomam decisões melhores e respondem de forma mais qualificada aos desafios da sociedade.
Qual legado a senhora espera deixar para a Andifes e para o conjunto das universidades federais brasileiras?
Eu prefiro pensar menos em legado pessoal e mais em fortalecimento institucional. A presidência da Andifes é uma responsabilidade temporária. A instituição Andifes permanece. Se ao final da nossa gestão tivermos uma Andifes mais participativa, mais transparente, mais articulada internamente e mais respeitada como interlocutora da sociedade brasileira, acredito que teremos dado uma contribuição importante.
Também gostaria que a associação fosse reconhecida cada vez mais por sua capacidade de construir consensos, formular propostas e defender as universidades federais não apenas quando elas são atacadas, mas principalmente mostrando ao país o quanto elas são essenciais para o seu desenvolvimento. Porque, no fundo, fortalecer a Andifes é fortalecer um patrimônio público que pertence a toda a sociedade brasileira.
