Projeto da UFFS leva soluções de engenharia e educação ambiental a escola pública de Chapecó

Acadêmicos elaboraram plano de gestão de resíduos sólidos, estudaram o aproveitamento da água da chuva e produziram lixeiras

Assessoria de Comunicação do Campus Chapecó 

Créditos: Divulgação/UFFS

Projeto da UFFS leva soluções de engenharia e educação ambiental a escola pública de Chapecó

Professora Rosiléa entrega Plano para a representante da escola

O que acontece quando problemas cotidianos de uma escola pública passam a ser analisados também sob o olhar da engenharia? Na Escola de Educação Básica (EEB) Tancredo de Almeida Neves, no Bairro Efapi, em Chapecó, essa aproximação resultou em diagnóstico, propostas de intervenção e ações concretas voltadas à gestão de resíduos sólidos e ao uso sustentável da água. Para os estudantes da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Chapecó, a experiência também colocou à prova, em uma situação real, conhecimentos construídos ao longo da graduação.

A iniciativa foi desenvolvida no primeiro semestre de 2026 no Projeto Integrador de Engenharia, do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da UFFS – Campus Chapecó, coordenado pela professora Rosiléa Garcia França. Participaram os acadêmicos Amanda Fidelis Gasparin, André Peruchi, Ana Alice Porto, Ana Maria Bianchi, Camila Eduarda Stoll da Rosa, Fernanda Rauber e Rafaella da Silva de Melo.

A proposta do componente curricular foi justamente aproximar a formação acadêmica de demandas da comunidade. Entre os objetivos estavam desenvolver a capacidade de perceber problemas reais, estimular criatividade, proatividade e trabalho em equipe, aplicar conhecimentos da engenharia em atividades de extensão e fortalecer a integração entre universidade e comunidade.

A escolha de uma escola pública, conforme a professora, foi parte da concepção do trabalho. Localizada próxima à Universidade, a EEB Tancredo de Almeida Neves surgiu como um espaço onde os acadêmicos poderiam não apenas observar problemas, mas dialogar com a comunidade e construir possíveis soluções. “A ideia era que os estudantes pudessem ter a experiência de ações extensionistas e a escola pública no Bairro Efapi, próxima à UFFS, foi uma opção interessante porque o contato com a comunidade e a busca por soluções de engenharia para a escola seria um aprendizado”, explica Rosiléa. Segundo a professora, o objetivo pedagógico era “estimular o pensamento crítico, a autonomia e a vivência, permitindo que o estudante tivesse a possibilidade de aplicar conhecimento teórico à realidade do curso de engenharia”.

Primeiro, ouvir e conhecer a escola

A professora conta que a parceria começou com o contato com a direção da escola. A instituição já recebia outras ações de extensão, inclusive do curso de Agronomia da UFFS – Campus Chapecó. Depois das primeiras conversas por mensagens, foi realizada uma reunião presencial na qual a equipe da Universidade apresentou as possibilidades de trabalho e ouviu as demandas da comunidade escolar.

Conforme a professora Ana Paula Ruani, da EEB Tancredo de Almeida Neves, esse primeiro encontro foi importante justamente porque o projeto não chegou à escola com todas as respostas prontas. “O encontro foi rico e valioso em informações, ideias e conhecimento, onde conseguimos expor as prioridades da escola e definir como o projeto seria realizado”, afirma.

Ela explica que a escola já desenvolvia iniciativas relacionadas à sustentabilidade, entre elas a separação de determinados materiais e parcerias para destinação e reaproveitamento. Ainda assim, havia problemas a enfrentar, especialmente na separação dos diferentes tipos de resíduos. Na área de recursos hídricos, já existia um sistema de captação de água da chuva, mas com possibilidade de expansão.

Para Ana Paula, a escola aceitou a proposta desde o início, já que a parceria também se relacionava à própria função educativa da escola. Ela também destaca a valorização da parceria entre escola e universidade, a aprendizagem por meio de projetos, o desenvolvimento dos estudantes e a possibilidade de melhorar e conservar o espaço escolar.

A partir desse diálogo, o trabalho concentrou-se em duas grandes frentes: gestão de resíduos sólidos e uso e aproveitamento da água da chuva. Embora os acadêmicos tenham se organizado em equipes para aprofundar cada tema, Rosiléa ressalta que todos estiveram envolvidos no processo como um todo.

Mais de 270 quilos de resíduos em cinco dias

Uma das frentes deu origem ao Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS) da escola. O trabalho exigiu percorrer os espaços da instituição, identificar os pontos de geração e acondicionamento, acompanhar a rotina de descarte, quantificar os materiais e analisar como eles eram separados. O tamanho da comunidade ajuda a dimensionar o desafio: o levantamento utilizado no projeto registra aproximadamente 1,5 mil estudantes e 52 servidores na escola.

Durante cinco dias de atividades escolares, foram pesados os resíduos gerados pela instituição. O PGRS registra um total de 276,6 quilos no período analisado. Posteriormente, a equipe realizou uma composição gravimétrica, procedimento que permite separar, identificar e quantificar as diferentes frações presentes nos resíduos. A atividade contou também com estudantes do 2º ano do curso Técnico em Administração da própria escola, com a separação dos materiais entre recicláveis, orgânicos e rejeitos.

O grupo chegou à conclusão de que justamente nessa etapa havia um dos principais problemas: materiais que deveriam seguir destinos diferentes estavam sendo misturados. Nos sacos destinados aos recicláveis, por exemplo, foram encontrados materiais escolares usados, guardanapos e copos sujos, embalagens contaminadas e resíduos orgânicos. O levantamento chegou a identificar dois sacos com resíduos de banheiro misturados ao material destinado à reciclagem.

A acadêmica Rafaella da Silva de Melo, do 9º semestre de Engenharia Ambiental e Sanitária, se surpreendeu com a situação. Antes das visitas, ela imaginava encontrar dificuldades, como número insuficiente de lixeiras e descartes incorretos, mas percebeu que o problema era mais amplo. “Foi uma experiência muito diferente, porque saímos da teoria e passamos a lidar com a realidade. Durante o curso aprendemos conceitos e metodologias, mas, ao chegar à escola, percebemos que colocá-los em prática exige muito mais, principalmente na parte de lidar com pessoas e com as burocracias internas da instituição”, relata.

Para Rafaella, uma das questões identificadas foi a falta de orientação sistemática para os trabalhadores terceirizados da limpeza sobre separação, tipos de sacos, recolhimento e utilização das lixeiras. Ao mesmo tempo, o grupo encontrou iniciativas positivas já existentes na escola, como a separação de pilhas, tampas plásticas, blísteres de medicamentos, lixo eletrônico e lacres de alumínio.

A constatação está no próprio PGRS, que reconhece essas ações e registra ainda que os resíduos orgânicos já possuem iniciativas de destinação para compostagem e alimentação animal.

Cerca de 90 novas lixeiras

O trabalho, entretanto, não terminou no diagnóstico. Uma das respostas para minimizar as dificuldades encontradas foi a produção de aproximadamente 90 coletores para resíduos recicláveis, orgânicos e rejeitos. E a própria matéria-prima escolhida para produzi-los incorporou o princípio do reaproveitamento.

Com material residual cedido da indústria gráfica, os coletores foram confeccionados pelos acadêmicos, que realizaram a pintura, identificação e preparação das estruturas. “A confecção das lixeiras proporcionou dar um destino mais adequado, ou seja, o reaproveitamento deste material”, explica Rosiléa.

Para Rafaella, a experiência deu materialidade ao trabalho realizado durante o semestre. “Foi muito importante, porque o projeto deixou de ser apenas um documento e passou a gerar um benefício real para a escola. As lixeiras representam uma ferramenta para facilitar a separação correta dos resíduos”, afirma.

A distribuição dos coletores foi pensada a partir do próprio diagnóstico dos espaços. O PGRS propõe pontos de segregação em salas de aula, ambientes administrativos, corredores, pátio e refeitório, com identificação destinada a facilitar a escolha correta entre recicláveis, orgânicos e rejeitos.

Só a lixeira não resolve

O diagnóstico também levou a equipe a uma reflexão: instalar novos coletores não é suficiente se as pessoas que utilizam o espaço não souberem como separar os resíduos. Por isso, um dos eixos propostos é um plano de capacitação para alcançar estudantes, professores, servidores, trabalhadores terceirizados e famílias. O documento prevê atividades sobre segregação na fonte, armazenamento, descarte, consumo consciente e até práticas que podem ser reproduzidas nas residências, como compostagem doméstica.

Para a acadêmica, fazer com que essa transformação continue depois da saída da equipe universitária é justamente um dos pontos mais complexos. “O desafio central é garantir que a capacitação não fique apenas no papel, mas efetivamente engaje toda a comunidade nas ações de sustentabilidade da unidade”, avalia.

A expectativa é que os próprios estudantes da escola participem desse processo de multiplicação. A instituição pretende realizar momentos de conscientização nos dias letivos, com alunos envolvidos no projeto compartilhando conhecimentos com colegas, servidores e famílias.

Também está prevista a busca de parcerias para a destinação adequada dos materiais, incluindo a aproximação com associações e cooperativas de catadores. Entre as propostas registradas no PGRS está, ainda, a possibilidade de criação de um Ecoponto Voluntário no ambiente escolar. A ideia é que o espaço não funcione apenas como local de descarte, mas como ferramenta educativa e de aproximação com organizações de catadores, fortalecendo a economia circular.

A água que cai sobre a escola também virou objeto de estudo

Paralelamente ao trabalho com resíduos, os acadêmicos André Peruchi e Fernanda Rauber analisaram o potencial de aproveitamento da água da chuva. O estudo partiu das estruturas já existentes e avaliou a possibilidade de captar a precipitação que chega às coberturas da escola e do ginásio. A proposta inicial, registrada no Memorial de Uso de Água, considera uma cisterna de 10 mil litros para abastecer a irrigação da horta escolar, dos canteiros e das áreas de plantas medicinais.

Os números obtidos chamam a atenção. Considerando aproximadamente 3.989 metros quadrados de área construída, precipitação anual de 1.700 milímetros e eficiência de captação de 80%, o potencial teórico calculado chega a aproximadamente 5,425 milhões de litros por ano.

O estudo também analisou uma possibilidade mais ambiciosa: utilizar água da chuva em atividades que não necessitam de água potável. Foram identificadas 45 bacias sanitárias que poderiam, mediante projeto e adequações necessárias, ser abastecidas por uma rede de água não potável. Os cálculos apresentados no memorial estimam que as descargas representam cerca de 1.539 metros cúbicos de água por ano – aproximadamente 37% do consumo total teórico levantado para a escola.

Para Rosiléa, transformar parte desse potencial em realidade teria um reflexo bastante concreto. “A importância do reuso da água pela escola seria diretamente na conta de água, possibilitando uma economia anual bem significativa”, destaca.

A equipe também encontrou perdas que podem ser combatidas antes mesmo de qualquer obra de ampliação. O diagnóstico identificou vazamentos em torneiras e válvulas de descarga, além de problemas como válvula com retorno demorado e descarga quebrada. O memorial recomenda que essas inconformidades sejam corrigidas, já que a redução das perdas é uma medida imediata de conservação da água.

Na avaliação da escola, os números ajudaram a revelar uma oportunidade que ainda não estava totalmente dimensionada. Ana Paula conta que chamou a atenção “a quantidade de resíduos gerados, principalmente a discriminação entre quantidade de recicláveis, resíduos e rejeitos e as recomendações para ampliação de coleta de água, que depende de estrutura, claro, mas que pode aproveitar uma grande quantidade de água”.

A ampliação do sistema hídrico ainda depende de estudos e investimentos. O memorial recomenda, como etapa futura, um projeto executivo com cálculo hidrológico detalhado, dimensionamento das cisternas, separação física das redes de água potável e não potável e tratamento simplificado da água pluvial.


Grupo de estudantes da escola também visitou a UFFS – Campus Chapecó

Quando a teoria encontra pessoas

Para os acadêmicos, lidar com as limitações foi também parte da aprendizagem. O trabalho exigiu mobilizar conteúdos estudados em diferentes componentes curriculares, como Gestão e Tratamento de Resíduos Sólidos, Tratamento de Água, Hidráulica e Projeto de Sistemas de Água.

Mas houve aprendizados que não cabiam apenas nos cálculos. “Percebi que a engenharia vai muito além da elaboração de soluções técnicas. Para que um projeto realmente funcione, é necessário entender a realidade das pessoas, ouvir quem faz parte daquele ambiente e propor soluções viáveis para a rotina da instituição”, destaca Rafaella.

Segundo ela, o desenvolvimento do projeto também exigiu buscar referências adicionais em artigos e trabalhos acadêmicos, estudar legislação ambiental e metodologias de composição gravimétrica e pensar estratégias para transformar conhecimento técnico em ações de conscientização. A experiência, avalia a acadêmica, mudou também sua percepção sobre a profissão. “Profissionalmente, aprendi que a engenharia vai muito além da parte técnica. É preciso conversar com as pessoas, entender a realidade de cada lugar e pensar em soluções que realmente funcionem.”

Rosiléa identifica entre as competências desenvolvidas pelos acadêmicos o trabalho em equipe, a resiliência, a capacidade de analisar cenários, quantificar resíduos e identificar gargalos. Para a professora, é justamente essa combinação entre conhecimento técnico e realidade social que dá sentido à atividade extensionista. “A extensão universitária proporciona aos futuros engenheiros colocar em prática o conhecimento técnico adquirido no curso para resolver desafios reais, além de criar habilidades de trabalho em equipe e entender seu papel na sociedade como um agente de mudança”, afirma.

Universidade e escola pública no mesmo projeto

As atividades também foram relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A gestão de resíduos dialoga especialmente com o ODS 12, voltado a padrões sustentáveis de produção e consumo, enquanto o aproveitamento da água se relaciona ao ODS 6, sobre disponibilidade e gestão sustentável da água e do saneamento.

Mas a aproximação entre as instituições produziu um resultado que vai além das soluções ambientais propostas. Para Ana Paula, colocar estudantes da educação básica em contato com uma universidade pública amplia horizontes e permite que eles conheçam um espaço que também pode fazer parte do próprio futuro. “Considero essencial e de uma riqueza imensurável, tanto pela conversa, troca de ideias, demandas, informações e conhecimento prático e técnico, bem como pela relação estabelecida entre os alunos e a universidade e a diversidade de pensamentos, demandas e pontos de vista”, afirma. Para ela, a parceria também permite “a apresentação da universidade como possibilidade de futuro aos nossos alunos”.

E a relação ocorreu nos dois sentidos: foi uma troca. A equipe da UFFS foi até a escola para conhecer sua realidade, mas os estudantes da educação básica também visitaram a Universidade. Rosiléa lembra desse momento como um dos pontos marcantes do projeto. “O que mais me orgulhou foi o entusiasmo dos estudantes dedicado à realização do trabalho, principalmente nas atividades que envolveram os estudantes da escola e os da UFFS”, conta.

A expectativa agora é que os resultados ultrapassem o semestre acadêmico. Segundo Ana Paula, na gestão dos resíduos, a escola pretende promover ações de conscientização, aprimorar a separação entre recicláveis, orgânicos e rejeitos e fortalecer parcerias para a destinação dos materiais. Na área hídrica, deverá analisar a viabilidade de ampliar a captação e o aproveitamento da água da chuva.

O próprio PGRS aponta que a escola tem condições de avançar e até se tornar referência em gestão de resíduos e educação ambiental em Chapecó, desde que as medidas tenham continuidade e envolvimento da comunidade.

Para Rafaella, essa talvez seja uma das principais lições deixadas pela experiência: projetos ambientais não terminam com a entrega de um relatório, nem mudanças de comportamento acontecem imediatamente. “No fim, percebi que a sustentabilidade não acontece de um dia para o outro, mas sim com pequenas ações e um trabalho contínuo.”