Na segunda matéria da minissérie sobre o El Niño, o pesquisador da UFFS, Flávio Zimmermann, fala sobre como as redes sociais adicionam uma camada de complexidade no enfrentamento de eventos climáticos
Diretoria de Comunicação Social
Créditos: Foto: AFP, Criador: MANJUNATH KIRAN

Desinformação climática também se apresenta como um desafio para o enfrentamento de desastres
Se a história ajuda a compreender o risco, como vimos na primeira matéria publicada a partir de uma entrevista com o doutor em Geografia da UFFS, Pedro Murara, as redes sociais hoje também influenciam a forma como ele é percebido. Um ciclone, por exemplo, como vimos acontecer nas últimas semanas no Sul do Brasil, não chega mais apenas por meio da chuva, do vento ou de um boletim meteorológico. Chega também pelo celular. Vídeos de diferentes cidades, imagens de radar, previsões, relatos, alertas e comentários circulam simultaneamente pelas plataformas digitais.
Essa capacidade de fazer a informação chegar rapidamente à população pode ser decisiva em situações de risco. Mas, ao mesmo tempo que distribui alertas oficiais e conhecimento científico, também favorece a circulação de conteúdos falsos, alarmistas ou descontextualizados. Para o professor da UFFS e pesquisador da área da Filosofia, Flávio Zimmermann, esse cenário cria uma disputa pela atenção do público. “O conhecimento técnico, científico e especializado passa a circular no mesmo espaço que informações produzidas sem os mesmos critérios de verificação e, em alguns casos, por agentes interessados em produzir medo, dúvida ou desconfiança. E, claro, essas pessoas sempre existiram. Mas a diferença é que, no contexto das plataformas e das redes sociais, esses conteúdos ganharam maior capacidade de capturar a atenção das pessoas. E as plataformas, por sua vez, não têm uma regulamentação muito clara sobre o que pode e o que não pode espalhar. Então elas acabam ganhando com isso também, buscando atenção e o engajamento do usuário com a finalidade também de ter mais tempo na rede”, argumenta.
O que Zimmermann chama atenção é a lógica econômica das plataformas. Como o modelo depende, também, do tempo de permanência e do engajamento dos usuários, conteúdos capazes de provocar reações emocionais intensas podem encontrar condições favoráveis de circulação. “Quanto mais tempo o usuário fica na rede, mais as plataformas ganham com exposição de anúncios, de propaganda e isso acaba sendo um ciclo. E além desse tempo na rede, além de monetizá-lo, tem também objetivos ideológicos e políticos por trás disso. O ser humano é curioso, por natureza nós somos assim, então a gente busca notícias espetaculares, que geram uma reação emocional e acabamos nos prendendo a essas questões”, comenta Flávio.
Nesse ambiente, conteúdos alarmistas ou controversos podem disputar atenção com informações científicas, que muitas vezes exigem contexto, interpretação e cautela. O problema se torna particularmente relevante diante de fenômenos climáticos porque a desinformação pode atingir justamente a credibilidade da ciência e das instituições das quais a população depende para compreender o risco. Zimmermann aponta que uma das estratégias presentes nesse processo é produzir a aparência de que questões sustentadas por um amplo conjunto de evidências científicas permanecem em aberto. “A tentativa comum é de espalhar a ideia de que é uma controvérsia, uma falta de consenso na ciência. Mas divergências fazem parte da própria atividade científica. O problema surge quando uma posição individual ou isolada é utilizada para produzir a impressão de equivalência entre argumentos que não possuem o mesmo respaldo no conjunto das evidências disponíveis”, aponta.
As consequências vão além de uma disputa abstrata sobre quem está certo ou errado ou se isso nunca aconteceu antes e só passou a acontecer agora. Segundo Zimmermann, a desinformação, e inclusive a climática, também pode ser mobilizada para destruir reputações, desacreditar autoridades e minar a confiança nas instituições. “Em situações de emergência climática, essa confiança assume uma dimensão prática. A mesma plataforma capaz de fazer um alerta chegar rapidamente a milhares de pessoas também pode colocá-lo em competição com rumores, conteúdos falsos e narrativas que questionam a credibilidade das instituições responsáveis pelo monitoramento”, explica.
Por isso, para Zimmermann é fundamental recorrer a fontes confiáveis e reconhecer o conhecimento acumulado por instituições científicas e órgãos públicos. Mesmo em contextos de divergência ou polarização política, lembra o professor, pois essas estruturas são formadas também por técnicos, pesquisadores e profissionais especializados. “Existe um corpo robusto de especialistas, concursados, docentes, pesquisadores, professores, autoridades científicas que têm domínio desse assunto”, destaca. “Saber onde buscar informação e em quem confiar também passa a integrar a capacidade de uma sociedade de enfrentar um desastre”, finaliza Zimmermann.
Reconhecer os riscos e ter acesso a informações confiáveis, entretanto, é apenas uma parte da resposta. Se eventos extremos fazem parte da dinâmica climática da Região Sul e não podem simplesmente ser evitados, outra questão se impõe: é possível reduzir os danos que eles provocam? Veremos isso na próxima reportagem da série, na qual o professor João Paulo Bezerra, da UFFS – Campus Erechim falará sobre adaptação climática.
Confira primeira reportagem publicada pela série: Eventos extremos no Sul: pesquisador da UFFS fala sobre como a perspectiva histórica ajuda a entender o presente