Professor Jin Qian, da Shanghai International Studies University, esteve na UFRJ para discutir as transformações do sistema midiático chinês e os impactos das plataformas digitais, da inteligência artificial e da automação.


Da internet à “sociedade de plataformas”
Ao apresentar a evolução do sistema midiático chinês, Qian organizou sua análise em três momentos: a formação da internet no país, a transformação social promovida pela web e a chamada “virada das plataformas”.
“A construção da internet chinesa esteve ligada a fluxos internacionais de capital, conhecimento e infraestrutura tecnológica. A formação de estudantes chineses em universidades estrangeiras, os investimentos internacionais e a ampliação das conexões com outros países participaram desse processo”, explica o pesquisador.
A expansão ganhou força nos anos 2000, período marcado também pela maior inserção da China na economia mundial, pelo crescimento da indústria de mídia e por profundas transformações sociais e urbanas. O desenvolvimento da internet ocorreu, portanto, paralelamente a mudanças na organização da sociedade chinesa.
Esse processo resultou na formação de um ecossistema digital com características próprias. A saída do Google do mercado continental chinês, os debates sobre soberania de dados e o crescimento das empresas nacionais de tecnologia contribuíram para diferenciar o modelo chinês de outras experiências internacionais, explica Qian.
Um dos exemplos apresentados foi o Weibo. A plataforma, inicialmente associada a serviços semelhantes aos oferecidos por redes sociais ocidentais, passou a desempenhar um papel próprio na organização dos públicos digitais, na circulação de informações e no desenvolvimento de novas formas de mediação algorítmica.
O processo ganhou outra dimensão com o WeChat. Reunindo comunicação, pagamentos e uma série de serviços em uma única plataforma, o aplicativo passou a ocupar um espaço integrado à rotina dos usuários. Por isso, Qian utiliza a expressão “everything app” para caracterizar o serviço.
A mudança ajuda a explicar uma das principais ideias discutidas durante a aula: as plataformas deixaram de ser apenas ferramentas digitais e passaram a funcionar como infraestruturas sociais.
Na prática, isso significa que sua atuação ultrapassa a comunicação. As plataformas passam a mediar atividades relacionadas ao consumo, ao trabalho, à mobilidade, ao acesso a serviços e às relações entre indivíduos e instituições.
Entre plataformas, poder e os novos desafios do trabalho
Durante a palestra, Qian destacou que a eficiência e a integração proporcionadas pelas plataformas convivem com processos de concentração de dados, recursos tecnológicos e capacidade de intermediação. A mesma infraestrutura que pode facilitar serviços e reduzir burocracias também pode ampliar a concentração de poder em grandes ecossistemas digitais.
“A China contemporânea é uma ‘sociedade de plataformas’, marcada simultaneamente pelo potencial de eficiência das tecnologias digitais e pelos desafios decorrentes da concentração de poder e da formação de sistemas cada vez mais fechados”, salientou Qian.
Outro eixo da aula foi o avanço da inteligência artificial e da robotização. Para o pesquisador, a automação já não está restrita às atividades industriais e passa a alcançar também setores ligados às indústrias criativas e à produção de conteúdos.
A discussão desloca, assim, o foco da tecnologia em si para seus efeitos sociais. A questão passa a ser como a automação modifica as profissões, as competências exigidas e as formas de inserção no mercado de trabalho. Criatividade, empreendedorismo e capacidade de adaptação aparecem, nesse cenário, como competências cada vez mais relevantes diante de uma transformação tecnológica que alcança diferentes setores da economia.
Cooperação entre UFRJ e China
A presença de Jin Qian na UFRJ integra uma trajetória mais ampla de cooperação entre a Universidade e instituições chinesas. A parceria entre a UFRJ e a China vem sendo construída há anos e envolve diferentes áreas do conhecimento, com iniciativas voltadas à pesquisa, à inovação, à formação e ao intercâmbio acadêmico.
Um dos marcos recentes dessa aproximação ocorreu em novembro de 2024, quando a UFRJ e o governo chinês anunciaram a criação do Instituto China-Brasil de Engenheiros de Destaque, iniciativa voltada à formação e à produção de conhecimento de excelência na área de engenharia. Na mesma ocasião, foi inaugurado o Instituto Brasil-China de Inovação, Ciência e Tecnologia (BCCSTI).
A cooperação ganhou novos desdobramentos em 2026. Entre as iniciativas recentes, estão a inauguração do Centro de Livros da China, na Faculdade de Letras, novos acordos no Parque Tecnológico voltados aos setores de petróleo e energia e a realização de competições acadêmicas bilaterais de inovação.
A agenda de cooperação inclui ainda acordos e iniciativas com universidades chinesas, entre elas a Universidade do Petróleo da China e a Universidade Tsinghua. A construção dessa rede aproxima universidades, pesquisadores, empresas e instituições dos dois países.
No campo da comunicação, a aproximação com a Shanghai International Studies University amplia essa agenda para temas relacionados às Ciências Humanas e Sociais, à comunicação digital e às relações entre tecnologia e sociedade.
A discussão apresentada por Jin Qian permite observar como a transformação tecnológica chinesa ultrapassa o campo técnico e produz efeitos sobre a comunicação, as relações sociais, o trabalho e as indústrias criativas. A iniciativa também abre possibilidades para novas pesquisas comparativas, intercâmbios de pesquisadores e atividades acadêmicas conjuntas entre instituições brasileiras e chinesas, explica Leonardo De Marchi.
Pesquisa aproxima comunicação, tecnologia e sustentabilidade
A agenda de cooperação também dialoga com pesquisas desenvolvidas atualmente no PPGCOM-UFRJ. É o caso do trabalho da doutoranda Lucia Novaes, que acaba de retornar de um período de doutorado sanduíche na Renmin University of China, em Pequim.
Com apoio da Capes, a pesquisadora desenvolveu atividades acadêmicas na China relacionadas à comunicação, à sustentabilidade e aos debates sobre civilização ecológica. Sua pesquisa de doutorado investiga as relações entre comunicação, inteligência artificial verde, governança global e crises climáticas, com atenção especial à cooperação entre China e Brasil.
O trabalho busca compreender como tecnologias emergentes, narrativas e infraestruturas comunicacionais participam da construção de respostas aos desafios ambientais contemporâneos.
A experiência da pesquisadora acrescenta outra dimensão à cooperação acadêmica entre os dois países. Ao lado dos estudos sobre plataformas e inteligência artificial apresentados por Jin Qian, a pesquisa desenvolvida no PPGCOM-UFRJ evidencia como tecnologia, comunicação, sustentabilidade e governança global estão cada vez mais conectadas.
Novas possibilidades de intercâmbio
A aula inaugural reuniu, assim, diferentes frentes da cooperação acadêmica entre Brasil e China e reforçou a internacionalização do PPGCOM-UFRJ.
Para além da discussão sobre o desenvolvimento tecnológico chinês, o encontro colocou em pauta questões que atravessam diferentes sociedades: quem controla as infraestruturas digitais? Como a inteligência artificial transforma o trabalho? Quais são os impactos sociais e ambientais da expansão tecnológica?
“Ao trazer essas questões para a universidade pública brasileira, o PPGCOM-UFRJ amplia o diálogo com pesquisadores internacionais e fortalece novas possibilidades de pesquisa, intercâmbio e produção de conhecimento. A presença de Jin Qian na UFRJ representa, nesse sentido, mais um passo na construção de uma agenda acadêmica entre Brasil e China, aproximando comunicação, tecnologia, inovação e sustentabilidade e ampliando as possibilidades de cooperação científica entre os dois países”, concluiu Leonardo De Marchi.

Fonte: UFRJ