Diagnóstico de influenciador chama a atenção para doença rara; laboratórios do ICB analisam alterações genéticas em casos suspeitos
Por Luiz Felipe Fernandes (UFG)

A divulgação do diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) pelo influenciador e especialista em aviação Lito Sousa ampliou a atenção sobre uma enfermidade rara, de rápida progressão e ainda sem tratamento capaz de interromper sua evolução. A Universidade Federal de Goiás (UFG) participa da rede nacional responsável pela investigação laboratorial de casos suspeitos.
Desde setembro de 2023, o Laboratório de Diagnóstico Genético e Molecular (LDGM) e o Laboratório de Oncogenética e Genética Médica (Logen), ambos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), integram a rede organizada pela Coordenação-Geral de Laboratórios de Saúde Pública do Ministério da Saúde.
A UFG é um dos centros colaboradores da rede no país. A Universidade é responsável por análises do gene PRNP, que contém as instruções para a produção da proteína priônica. Alterações nesse gene podem estar relacionadas às formas genéticas da doença e ajudar a diferenciá-las dos casos esporádicos, nos quais não há histórico familiar nem uma mutação causadora previamente identificada.

Diagnóstico exige diferentes exames
A doença de Creutzfeldt-Jakob pertence ao grupo das doenças priônicas. Ela ocorre quando proteínas priônicas assumem uma conformação anormal e induzem outras proteínas a sofrer alterações semelhantes. Esse processo provoca danos progressivos às células nervosas.
Os sintomas podem incluir perda de memória, alterações de comportamento, dificuldade para caminhar, falta de coordenação motora, distúrbios visuais, problemas de fala, tremores e espasmos musculares. Como as manifestações iniciais podem ser confundidas com as de outras doenças neurológicas, o diagnóstico exige a combinação da avaliação clínica com diferentes exames.
Atualmente, a rede utiliza exames como eletroencefalograma, ressonância magnética, tomografia computadorizada e sequenciamento do gene PRNP para diagnosticar a doença e investigar sua origem. Na UFG, amostras de sangue são utilizadas para pesquisar variantes e mutações no gene. As análises são feitas por perfil de restrição, técnica conhecida pela sigla RFLP, e pelo sequenciamento genético.
Entretanto, como explica o professor do ICB Carlos Eduardo Anunciação, os exames genéticos não devem ser interpretados isoladamente. Algumas variantes do PRNP podem influenciar a suscetibilidade ou as características clínicas da doença sem necessariamente serem sua causa primária. Por isso, os resultados precisam ser analisados em conjunto com os sintomas, o histórico do paciente e os demais exames.
“O diagnóstico da DCJ é complexo e difícil de diferenciar de outras doenças neuronais em seus estágios iniciais. Por isso, são necessários exames complementares para sua correta confirmação”, ressalta o professor.
Segundo Carlos Eduardo, a conclusão das análises genéticas leva, em média, 30 dias. O prazo pode variar conforme a necessidade de repetição dos testes e a formação do número mínimo de amostras para utilização do equipamento de sequenciamento.
Amostras de três estados
Entre 2024 e 2026, os laboratórios do ICB receberam 25 amostras encaminhadas pelos Laboratórios Centrais de Saúde Pública, os Lacens. Duas vieram de Goiás, 16 do Ceará e sete de Pernambuco. Desse total, cinco ainda estão em processamento.
“A rede, em nível nacional, ainda está em construção, sendo Goiás, Ceará e Pernambuco os estados mais ativos no envio de amostras por meio de seus Laboratórios Centrais de Saúde Pública”, explica o professor.
O número de amostras ainda é pequeno diante da incidência estimada da doença — de um a dois casos por milhão de habitantes a cada ano. De acordo com o pesquisador, isso ocorre porque a rede nacional ainda não foi totalmente implementada em todos os estados.
A DCJ passou a ser objeto de notificação compulsória no Brasil em 2005. A vigilância é importante tanto para acompanhar a ocorrência da doença quanto para diferenciar suas formas. A maioria dos casos surge de maneira esporádica, sem uma causa conhecida. Uma parcela menor está associada a alterações genéticas hereditárias, enquanto casos adquiridos são muito raros.
A forma clássica da doença não é transmitida pelo contato cotidiano. Também não deve ser confundida com a variante da DCJ associada à encefalopatia espongiforme bovina, popularmente chamada de “doença da vaca louca”. Segundo o Ministério da Saúde, não há registro dessa variante em seres humanos no Brasil.
Novas possibilidades de pesquisa
Até agora, a atuação dos laboratórios da UFG tem se concentrado no diagnóstico genético e na vigilância. A implantação do sequenciamento de nova geração, conhecido como NGS, deverá permitir uma análise mais abrangente do PRNP e abrir novas frentes de pesquisa.
O trabalho inicial dos laboratórios concentrou-se na caracterização de mutações por meio do sequenciamento pelo método de Sanger. Com o NGS, os pesquisadores poderão examinar outras regiões do gene e investigar fatores genéticos que possivelmente influenciam a produção ou a alteração da proteína priônica.
O interesse surgiu, entre outros motivos, pela identificação de características pouco usuais em algumas amostras recebidas, como a ocorrência da doença em uma pessoa de 21 anos — idade muito inferior à faixa mais frequente da forma clássica — e repetições de blocos de nucleotídeos em uma região ainda em investigação.
“Pretendemos, com a inserção do NGS, analisar e tentar correlacionar toda a região promotora do gene, bem como as regiões não codificadoras ou íntrons, com os casos certificados da doença, na tentativa de identificar os fatores genéticos que induzem ou propiciam as alterações da estrutura da proteína antes produzida normalmente”, afirma Carlos Eduardo.
Além de Carlos Eduardo Anunciação, participam do trabalho as professoras Elisângela de Paula Silveira Lacerda e Lívia do Carmo Silva, o doutorando Luiz Henrique Alves Costa e a estudante de Medicina Jude Lima Almeida. A equipe também pretende estabelecer colaborações internacionais. A UFG ainda não participa dos estudos ION717/PrProfile ou PRiSM, que investigam medicamentos destinados a reduzir a produção da proteína priônica.
“Nossa inserção na rede DCJ possui apenas três anos. No momento, nosso interesse está centralizado em conhecer as bases genético-moleculares da doença, mas já almejamos obter colaboração com pesquisadores e institutos internacionais”, diz o professor.
Segundo ele, a população brasileira, marcada pela miscigenação, pode despertar o interesse de pesquisadores estrangeiros que estudam os fatores envolvidos na produção e nas alterações da proteína priônica.