Pesquisa realizada em ratos identificou alterações na barreira intestinal e na microbiota após dez semanas de exposição ao aditivo alimentar
Escrito por Valquíria Carnaúba (Unifesp)

Uma pesquisa conduzida por Alessandra Rischiteli Bragança Silva, doutora em Ciências, e Claudia Oller, professora titular, ambas do Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, identificou alterações intestinais associadas ao consumo prolongado de goma xantana, aditivo utilizado como espessante e estabilizante em diversos alimentos. O estudo foi realizado em ratos e publicado na revista PLOS One (veja matéria na Agência Fapesp).
Durante dez semanas, os animais receberam diferentes concentrações do aditivo. Os pesquisadores observaram inflamação intestinal moderada, aumento de moléculas pró-inflamatórias e alterações na proteína Claudina-2, relacionada à permeabilidade da barreira intestinal. Também foram identificadas mudanças na composição da microbiota.
Para Alessandra, os achados contribuem para avançar uma hipótese clínica que vem sendo discutida na literatura científica desde 2012, relacionada à associação entre o uso de espessantes à base de goma xantana e o desenvolvimento de enterocolite necrosante em bebês prematuros. “Após publicações científicas em 2012, esta hipótese clínica representou um divisor de águas na definição da conduta na prática clínica e na regulamentação da Food and Drug Administration (FDA)”. A agência federal do governo dos Estados Unidos é responsável por proteger e promover a saúde pública por meio da regulação e supervisão de alimentos, medicamentos, cosméticos, dispositivos médicos e produtos veterinários.
A pesquisadora ressalta, no entanto, que os resultados obtidos em modelo animal não permitem concluir que a goma xantana provoque os mesmos efeitos em seres humanos. Para ela, a próxima etapa é ampliar a investigação por meio de estudos translacionais que permitam avaliar a relação entre os mecanismos observados experimentalmente e seus possíveis efeitos clínicos. “Agora, será necessário realizar a pesquisa translacional para humanos com vistas em regulamentar as doses seguras, possibilidades de intervenção terapêutica para quem faz uso de goma xantana, dentre outros avanços.”
A pesquisadora também destaca que a goma xantana possui diferentes contextos de uso e que a regulamentação deve ser considerada de acordo com a população e o tipo de alimento. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabelece, para cada categoria de alimento, quais aditivos são autorizados, suas funções tecnológicas e respectivas condições de uso. A goma xantana é permitida em determinadas categorias de alimentos, como batatas descascadas ou picadas congeladas, nas condições estabelecidas pela legislação. Por isso, a pesquisadora recomenda que, enquanto novas evidências sejam produzidas, os(as) consumidore(a)s observem as regulamentações vigentes e as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, com prioridade para alimentos in natura ou minimamente processados.