Ufra: Reitora da Amazônia é a primeira mulher a tomar posse com o fim da Lista Tríplice

De uma infância ribeirinha no interior do Pará ao mais alto cargo de uma universidade pública federal. Essa é parte da história da nova reitora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), professora Gracialda Costa Ferreira. Ela assume a gestão da Ufra pelos próximos quatro anos e é a primeira reitora eleita na Amazônia brasileira após o fim da lista tríplice. Na região Norte, junta-se a outras quatro mulheres que estão à frente de universidades públicas federais: Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Universidade Federal de Rondônia (Unir) e Universidade Federal do Tocantins (UFT).

Engenheira Florestal, mestra em Ciências Florestais e doutora em Botânica, Gracialda nasceu em 1971, na vila de Beja, então pequeno povoado de Abaetetuba (PA). Sua infância teve forte relação com os recursos da floresta e dos rios e com os roçados dos pais e da avó, onde produziam mandioca para fazer farinha e outros alimentos. Em 1985, foi para a sede do município cursar o ensino médio. Inspirada por uma tia, sonhava em ser contadora e fez o curso técnico em contabilidade.

Em 1992, chegou a Belém em busca de uma oportunidade de emprego. Sem imaginar que seguiria carreira acadêmica, queria construir uma realidade diferente daquela destinada a muitas meninas da região: crescer, ter filhos e cuidar da casa. O período foi marcado por dificuldades relacionadas à falta de moradia e rede de apoio. “Essa dificuldade que a gente tem quando sai do interior e vai para a cidade, sem apoio, uma casa, um parente, um amigo talvez para muitas pessoas seja uma barreira para ultrapassar e acessar uma educação superior. Isso deixou uma marca, mas não negativa”, diz.

Após um trabalho temporário, quando teria que retornar a Abaetetuba, conheceu pesquisadores alemães e foi convidada a trabalhar na Embrapa, em um projeto de cooperação internacional (Projeto SHIFT – Studies of Human Impact on Forests and Floodplains in the Tropics). Lá, estudantes da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (FCAP, atual Ufra) perceberam sua facilidade para identificar plantas e realizar inventários florestais e a apresentaram ao curso de Engenharia Florestal. A caminhada acadêmica começou aí, transformando a visão do “mato” em ciência. “Entendi que aquilo fazia muito parte da minha infância e da minha história de vida. Acabei fazendo o curso, me formando em engenharia florestal e seguindo a carreira. Aí me apaixonei pela engenharia, pela floresta, por tudo”, conta.

O ingresso como aluna na FCAP ocorreu em 1996 e, como professora na Ufra, em 2002. Desde então, construiu trajetória de referência nas áreas de Dendrologia Tropical, Manejo Florestal e Recuperação de Áreas Degradadas. Foi coordenadora do curso de Engenharia Florestal, tutora do PET Engenharia Florestal, diretora de Gestão de Áreas especiais da Secretaria Municipal de Meio ambiente de Belém, diretora de Gestão de Florestas Públicas de Produção do IDEFLOR-Bio e diretora do Instituto de Ciências Agrárias da Ufra.

Também coordenou projetos de pesquisa e extensão e acordos de cooperação técnica, já publicou mais de 50 artigos científicos e 17 livros, apresentou trabalhos em congressos nacionais e internacionais e orientou estudantes na graduação, mestrado e doutorado. Entre 2013 e 2018, foi diretora do Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil–Noruega, do qual atualmente integra o Comitê Científico. Participa como membro titular de diversos fóruns e coletivos nas áreas de Bioeconomia, Restauração Florestal, Formação florestal, manejo florestal em nível estadual e nacional e apoia como voluntária diversos empreendimentos comunitários em territórios coletivos na Amazônia.

Trinta anos depois de ouvir seu nome no listão do vestibular, Gracialda Ferreira se torna reitora da mesma universidade que a acolheu na graduação e no mestrado. Agora, espera que sua trajetória inspire outras mulheres amazônidas a alcançar o ensino superior e enxergar na educação um caminho de transformação.

“Eu estou aqui para mostrar que uma pessoa que saiu da margem de um rio e passou por um processo de insegurança social, cultural e econômica conseguiu derrubar essas barreiras a partir da educação. As universidades ao nos fornecer educação de qualidade, permite que todos nós possamos ter acesso a essa educação e possamos sonhar com um futuro melhor. Nossa origem não determina o tamanho do nosso destino”, afirma.

À frente da Ufra pelos próximos quatro anos, a reitora pretende ampliar o acesso da universidade aos povos dos campos, das águas, das florestas e às comunidades tradicionais. “A UFRA precisa lançar seus braços e raízes, quebrar muros e chegar às pessoas que realmente precisam”, afirma.

Outro foco é ampliar o impacto da produção científica da universidade nas discussões sobre equilíbrio climático. “Nós desenvolvemos ciência efetiva e de ação. Não queremos que ela fique presa em papéis, teses ou artigos, mas que seja consumida e nutra a sociedade”, destaca.

Para Gracialda, a gestão universitária também pode ajudar mais pessoas a acreditarem que podem chegar à graduação, à pós-graduação e a espaços de gestão na pesquisa, extensão e tecnologia. “A UFRA é um canal para permitir sonhar. Nosso papel como servidor público é ajudar pessoas, por meio da educação, a transformar vidas, mostrar caminhos e transformar sonhos em realidade”, finaliza.

Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom Ufra.
Com informações de entrevista realizada pelo jornalista Bruno Chaves em agosto de 2026.