Texto: Adriana Damasceno. Edição: Thereza Marinho
Garantir que uma pessoa com deficiência chegue à escola ou à universidade é apenas uma parte do caminho. Para que ela possa aprender, participar das atividades e permanecer nesses espaços, a inclusão precisa estar presente no cotidiano, das condições de acessibilidade às práticas adotadas em sala de aula. Nesse processo, qual é o papel do professor?

A questão ganha destaque neste mês, em que é celebrado, no próximo dia 21, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Na Ufes, 766 estudantes com deficiência, incluindo matriculados em cursos de graduação e pós-graduação e na educação a distância (EaD), integram atualmente a comunidade universitária, segundo dados da Secretaria de Inclusão Acadêmica e Acessibilidade (Siac). O número corresponde a cerca de 3% dos aproximadamente 26 mil estudantes da Universidade.
Desse total, 553 estão matriculados no campus de Goiabeiras, 79 em Alegre, 65 em Maruípe, 38 em São Mateus e 31 na EaD. A presença de estudantes com deficiência em todos os campi da Ufes e também na educação a distância traz para o cotidiano da Universidade questões relacionadas não apenas ao ingresso, mas também à participação e à permanência nos diferentes espaços e modalidades de ensino.
Uma dimensão dessa discussão (o papel atribuído às professoras e aos professores) foi investigada por Isabela Costa durante seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/Ufes). A pesquisadora, que integra o Banco de Fontes Negras da Ufes, analisou como as políticas educacionais brasileiras redefiniram a atuação docente na inclusão escolar ao longo de 34 anos.
Centralidade e responsabilização
Intitulada O papel do professor na inclusão da pessoa com deficiência: uma análise crítica dos discursos normativo-educacionais no contexto brasileiro (1988–2022), a dissertação analisou leis, diretrizes, decretos, pareceres e outros documentos oficiais, da promulgação da Constituição Federal de 1988 até 2022. O objetivo foi compreender como essas normativas definiram o papel dos professores no processo de inclusão.
A análise identificou uma crescente centralidade do professor nas políticas de inclusão. Segundo Costa, esse movimento acompanha mudanças mais amplas nas políticas educacionais, que passaram a associar o trabalho docente a resultados, metas e desempenho e a enfatizar competências e habilidades específicas na formação docente. Na educação inclusiva, porém, a pesquisadora observa que a efetivação da política passa a depender, em grande medida, da atuação individual do professor.
De acordo com Costa, essa centralidade também amplia a responsabilização do docente: questões estruturais, como falta de recursos, condições de trabalho e apoio institucional, podem ser deslocadas para o professor, como se o sucesso ou o fracasso da inclusão dependesse apenas de sua atuação. Ela avalia que as sucessivas demandas de adaptação também podem reduzir a autonomia pedagógica e aproximar a docência de uma lógica de gestão e desempenho.
Para o professor do Departamento de Ciências Sociais Igor Suzano, que orientou Costa no mestrado, o trabalho permite ampliar a discussão para além da existência ou não da inclusão e refletir sobre o tipo de inclusão construído no sistema educacional. Segundo ele, considerar o capacitismo em conjunto com as condições socioeconômicas e as relações de poder permite compreender a inclusão educacional das pessoas com deficiência em um contexto mais amplo e estender essa reflexão a outros grupos, respeitando suas especificidades.
Da política ao cotidiano escolar
Agora no doutorado, também no PPGCS/Ufes, Isabela Costa amplia a investigação para a experiência concreta dos professores. Ela busca compreender como eles interpretam, incorporam, ressignificam ou resistem às políticas de inclusão diante das condições encontradas nas escolas. Também pretende investigar como as exigências de responsabilização, desempenho e adaptação repercutem sobre os docentes, em um contexto que caracteriza como de crescente precarização do trabalho.
Ao colocar em diálogo o papel previsto nas normativas e aquilo que os professores efetivamente conseguem realizar no cotidiano escolar, a pesquisadora espera compreender melhor os desafios da inclusão e contribuir para políticas públicas mais conectadas às condições concretas das escolas e da docência.
Fonte: UFES