Depois de permanecer fechada desde 2019, a Escola Municipal Mato Grosso, na comunidade rural de Valo Novo, em São João del-Rei, deverá retomar as atividades no início de 2027.

Depois de permanecer fechada desde 2019, a Escola Municipal Mato Grosso, na comunidade rural de Valo Novo, em São João del-Rei, deverá retomar as atividades no início de 2027. A reabertura conta com a participação da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), por meio do Grupo de Estudos em Educação do Campo e Agroecologia (GEECA), que vem atuando junto à comunidade na construção de uma proposta de educação vinculada à realidade do campo.
A escola atendia estudantes até o 5º ano do ensino fundamental e desde que foi fechada, crianças da região passaram a percorrer cerca de 50 quilômetros até a escola em que foram matriculadas, em um trajeto que pode chegar a quase cinco horas diárias de van por estradas de chão.
Com a previsão de reabertura, um levantamento realizado recentemente identificou 11 crianças da comunidade de Valo Novo que poderão frequentar a escola. Pelo zoneamento, outras sete crianças da comunidade Zueira também poderão ser atendidas, totalizando 18 estudantes.
A autorização para a retomada das atividades foi aprovada pela Câmara Municipal de São João del-Rei na última semana. A estrutura física da escola está passando por reformas para receber os estudantes a partir de 2027. A escola passará a se chamar Escola Municipal Raízes da Terra. A mudança do nome foi uma decisão da comunidade
Educação vinculada ao território
A participação da UFSJ teve início em 2025, quando Isaac Ribeiro, líder comunitário, ex-aluno da Escola Municipal Mato Grosso e presidente da Associação de Agricultura Familiar da Comunidade Rural de Valo Novo, procurou a professora Aline Aparecida Angelo, do Departamento de Ciências da Educação da UFSJ.
Graduado em Filosofia pela UFSJ e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Isaac também atua como agente territorial do novo Pronacampo. A partir do contato com a professora, foram iniciadas conversas com a Prefeitura de São João del-Rei para discutir a demanda da comunidade pela retomada da escola.
O GEECA passou a contribuir especialmente com as discussões relacionadas à Educação do Campo e à elaboração do Projeto Político-Pedagógico (PPP) da unidade. A proposta busca estabelecer uma relação entre a escola, a realidade da comunidade e a agricultura familiar.
Segundo Aline, a construção do projeto vem sendo realizada de forma participativa, envolvendo o GEECA, agentes territoriais e moradores de Valo Novo. “Precisamos que a comunidade entenda todo esse processo e que possa opinar, validar e entender o seu papel como uma comunidade participante e contribuinte nesse processo de gestão da escola”, explica.
Comunidade na construção do projeto
Para discutir a proposta da nova escola, o GEECA promoveu uma atividade com os moradores da comunidade. O encontro começou com uma conversa sobre educação e escola do campo e, em seguida, foi realizado um Círculo de Cultura.
A atividade foi conduzida a partir de questões como: qual escola do campo a comunidade quer? Que experiências ela pode proporcionar aos estudantes? E como a escola deve articular as questões sociais e culturais da comunidade?
O objetivo foi conhecer a realidade local e identificar concepções, valores e expectativas dos moradores em relação à escola. As contribuições levantadas serão sistematizadas e incorporadas ao Projeto Político-Pedagógico.
A proposta considera que Educação do Campo não se limita à localização de uma escola na zona rural. Trata-se de uma concepção educacional construída com a participação das comunidades e relacionada aos seus saberes, culturas, modos de vida e formas de organização. Nesse contexto, temas como agroecologia, agricultura familiar, participação comunitária e valorização dos conhecimentos locais integram as discussões sobre o projeto da escola de Valo Novo.
Pesquisa, extensão e formação
Coordenado pela professora Aline Aparecida Angelo, o GEECA reúne bolsistas, voluntários e pesquisadores de diferentes áreas, como Geografia, Biologia, Educação e Agronomia. O grupo está vinculado ao grupo de pesquisa Gestão Educacional com Participação Social, registrado no CNPq.
As atividades articulam pesquisa e extensão relacionadas à Educação do Campo e à Agroecologia, com ações desenvolvidas a partir das demandas identificadas nas comunidades e escolas. Entre as iniciativas estão intercâmbios agroecológicos, produção de materiais didáticos e ações de formação.
O grupo também desenvolve uma pesquisa financiada pela FAPEMIG sobre escolas do campo. O trabalho busca compreender as realidades dessas instituições e identificar possibilidades de contribuição da universidade para suas demandas.
No caso da Escola Municipal Mato Grosso, a atuação da UFSJ se soma à mobilização da comunidade pela retomada das atividades. A expectativa é que a escola volte a funcionar em 2027 com uma proposta pedagógica construída de forma participativa e relacionada ao território em que está inserida.
Fonte:UFSJ