Depois de 25 anos sem estudar, mulher trans encontra novo caminho com Enem

No dia em que completou 41 anos, Sabriiny Fogaça Lopes descobriu que havia conquistado uma vaga na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A aprovação em Licenciatura em Educação Especial veio pela nota do Enem 2025, primeira edição do exame de que participou. Até pouco tempo antes, chegar ao ensino superior sequer parecia uma possibilidade.

A notícia encerrou um hiato de aproximadamente 25 anos longe das salas de aula. Ela havia interrompido os estudos após sofrer bullying e transfobia. A desistência aconteceu depois de uma agressão dentro da escola. Foi só aos 40 anos que retomou a formação pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) e concluiu o ensino médio, antes de começar o ensino superior.

“Descobrir que fui aprovada em uma universidade federal como a UFRRJ exatamente no dia do meu aniversário foi o maior presente que já recebi na vida. Foi a prova viva de que a história daquela jovem que saiu de casa aos 17 anos e deixou os estudos aos 15 não tinha terminado ali. Foi a virada de chave mais linda da minha trajetória.

Corda no pescoço e fim dos estudos

Nascida em Nova Iguaçu e moradora de Seropédica, no Rio de Janeiro, Sabriiny estava na antiga oitava série quando tudo aconteceu. Naquele período, a palavra bullying ainda não fazia parte das conversas. As agressões eram tratadas como “zoação”, embora provocassem medo e a fizessem se sentir isolada.

Sabriiny percebeu sua identidade entre os 14 e os 15 anos. Conta que as meninas a aceitavam melhor, mas a rejeição e o preconceito partiam, principalmente, dos garotos. Na verdade, nem ela compreendia que o que enfrentava era transfobia. Só sabia que estar ali se tornava cada vez mais doloroso.

Nessa época, apaixonou-se por um menino, mas não se sentia autorizada a falar sobre o assunto. “Eu me sentia completamente isolada e fora de lugar naquele ambiente, sem ter como me defender ou me fazer entender.”

A situação chegou ao limite quando alguns alunos brincavam de deslizar sobre pedaços de papelão com a ajuda de cordas, até que uma das cordas foi enrolada no pescoço de Sabriiny. A agressão deixou uma marca visível.

Ela chegou a identificar os responsáveis para a professora, mas a única punição que o grupo recebeu foi permanecer na escola depois do horário. “Aquele trauma e a falta de uma proteção real me mostraram que eu não podia continuar ali. Sair da escola virou uma questão de autopreservação.”

Fora de casa, começou a trabalhar como doméstica e passou a morar na casa dos patrões, onde tinha alimentação e lugar para dormir. Precisava sobreviver com o salário mínimo da época, de R$ 180.

Depois de guardar algum dinheiro, fez um curso de cabeleireira e trabalhou no setor de beleza e estética. As necessidades da vida adulta afastaram ainda mais a possibilidade de retornar à escola.

Retorno aos 40 anos

Por mais de duas décadas, Sabriiny acreditou que não voltaria a estudar. A rotina de trabalho e o tempo transcorrido reforçavam a impressão de que aquela etapa havia tido um fim. O desejo de retornar, no entanto, continuou presente. Ela queria melhorar de vida e ter uma profissão.

“Por muitos anos achei que a escola não fizesse mais parte do meu destino. Quando você passa tanto tempo afastada e vivendo na correria do trabalho para garantir o básico, começa a achar que o tempo de estudar já passou.”

A retomada começou pela EJA (Educação de Jovens e Adultos). Concluiu o ensino fundamental na Escola Municipal Panaro Figueira e, depois, o ensino médio, no Colégio Estadual Barão de Tefé, ambos em Seropédica.

Houve insegurança, é claro, mas a experiência foi bem diferente daquela vivida na adolescência. Encontrou professores que a incentivaram e recuperou, aos poucos, a confiança para projetar um futuro.

“Voltar adulta, depois de 25 anos e de tudo o que enfrentei na vida, fez com que eu valorizasse cada minuto dentro de sala. Já não era mais aquela menina assustada dos 15 anos; era uma mulher consciente do valor que a educação tem para transformar realidades.”

Foi nesse ambiente escolar que decidiu prestar o Enem em novembro passado. Nunca havia feito a prova e sequer sabia como funcionava um vestibular. Conforme avançava na EJA, passou a enxergar a universidade pública como um objetivo possível.

A preparação ocorreu ao mesmo tempo em que concluía o ensino médio. Ela procurava os professores sempre que surgiam dúvidas, inclusive nos fins de semana. A ajuda mais próxima veio de Simone Santos Viana, de Língua Portuguesa, que corrigia suas redações e exercícios fora do horário das aulas.

A ligação entre as duas continua, e a docente já foi convidada para ser madrinha de formatura quando sua ex-aluna concluir a graduação.

A experiência do Enem

Dois dias antes do exame, em 2025, Simone havia proposto uma redação em sala. Quando Sabriiny abriu o caderno da prova do Enem, deparou-se com o mesmo tema trabalhado pela professora. O reconhecimento do assunto amenizou parte da ansiedade que carregava. “Senti até um alívio e pensei: ‘Essa vaga é minha’. Era a confirmação de que eu estava no lugar certo e na hora certa.”

Com a nota do Enem, concorreu a uma vaga na UFRRJ. Escolheu Serviço Social como primeira opção e Educação Especial como segunda. Foi aprovada inicialmente na seleção secundária e começou a graduação. Posteriormente, a lista de espera também a convocou para Serviço Social, mas ela decidiu permanecer no curso que frequentava.

“A Educação Especial conversou de forma imediata com o meu histórico de vida. Sei, na pele, o que é estar em um ambiente escolar que exclui, machuca e não está preparado para acolher a diversidade.”

Depois da graduação, Sabriiny retende cursar uma pós em Psicopedagogia e atuar como psicopedagoga. “Quero olhar para o estudante enxergando suas necessidades, suas dores e suas potencialidades antes de qualquer rótulo. Sei como um ambiente acolhedor faz a diferença na vida de uma pessoa e quero ser a profissional que estende a mão e acredita no aluno, assim como a professora Simone fez comigo.”

Da segunda opção a profissão escolhida

Atualmente no segundo período da licenciatura, Sabriiny faz estágio em uma creche perto de casa. A universidade também trouxe novas amizades e oportunidades. Hoje, ela participa das discussões sobre inclusão no campus e integra a diretoria de diversidade do diretório acadêmico, sendo uma das poucas – senão a única – trans entre os mais de 200 estudantes do curso.

“Estar nesse espaço sendo uma das poucas ou a única pessoa trans entre mais de duas centenas de estudantes traz uma grande responsabilidade. Mostra o quanto a universidade ainda precisa se democratizar para acolher os nossos.”

Depois de ingressar na graduação, passou a ver a própria trajetória de outra maneira. “Hoje me enxergo com orgulho. Entendi que as marcas do passado não representam derrota, mas sim a bagagem que me fortaleceu para ocupar meu espaço hoje no ensino superior”, avalia.

Pessoas trans no Enem

O Enem permite o tratamento pelo nome social, desde que o cadastro esteja atualizado na Receita Federal. Sabriiny, porém, já havia retificado o nome e o gênero nos documentos quando fez a prova. Seu processo ocorreu em 2022, por meio de um projeto ligado à Fiocruz.

“Ver a certidão e o RG com o meu nome real, Sabriiny Fogaça Lopes, foi a concretização de um direito fundamental. Foi o momento em que o Estado finalmente reconheceu a mulher que sempre existiu”, afirma ela, que defende que “ninguém deveria deixar de estudar ou passar por situações de constrangimento por não ter sua identidade respeitada”.

A conquista da vaga levou sua história para além da universidade. A convite do Grupo Eureka, já participou do evento de comunicação e tecnologia Bett Brasil, em São Paulo, como palestrante. Também foi homenageada na escola Barão de Tefé, onde concluiu a EJA, com um trabalho de estudantes que apresentavam sua jornada.

Sabriiny espera que o Enem abra caminhos para outras pessoas, sobretudo quem interrompeu os estudos e acredita que já passou da idade de retornar. A educação, aliás, virou um desafio estimulante. Tanto que ela já se inscreveu para, mais uma vez, fazer o exame nos próximos dias 8 e 15 de novembro.

“Quero fazer o Enem novamente como forma de constante aprendizado e autodesafio. Quero testar meus limites e ver o quanto mais posso evoluir. Depois de quebrar tantos tabus para chegar até aqui, recuso qualquer limite para os meus estudos.”

Fonte: UOL