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“Evasão e retenção são fenômenos mundiais”, afirma ex-coordenadora do Cograd Isabel Quadros

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Como uma das últimas ações do Colégio de Pró-reitores de Graduação das IFES (COGRAD) em 2020, foi realizado o I Workshop Ecograd, reunindo um grupo de pesquisadores com o objetivo de identificar causas, consequências e métricas adequadas dos fenômenos da evasão e retenção dos alunos de graduação das universidades federais, bem como o estudo dos indicadores de qualidade de cursos. O projeto consolida o arcabouço teórico desses fenômenos e o conjunto mais amplo possível de políticas educacionais já aplicadas para enfrentá-los. Também será estudada a empregabilidade dos egressos das universidades federais. Para compreender melhor o Ecograd, conversamos com a ex-coordenadora do Cograd, Isabel Quadros, que encerrou o mandato no último dia 10, e com o coordenador do projeto, José Jorge Lima Dias Jr.

Professora Dra. Isabel Quadros é pró-reitora de Graduação da Unifesp e foi coordenadora nacional do Cograd até 10/12/2020.

O que é o Projeto Ecograd?
É um projeto criado a partir de diversas conversas no âmbito do Cograd e da Andifes, debatendo indicadores como evasão, retenção, taxa de sucesso, e outros. Em 2018, o Grupo de Trabalho do Cograd iniciou um trabalho mais intenso de estudos desses indicadores, propondo análises mais complexas e aprofundadas a partir dos dados do Censo da Educação Superior, utilizando séries temporais e olhando em maior detalhe o que acontecia com estudantes que abandonavam seus cursos: se eles se mantinham na mesma instituição, mas apenas trocavam de curso, se trocavam de curso e IES, ou se realmente abandonaram o sistema educacional. Além disso, observatórios de dados da graduação em algumas IFES também mostravam que poderia ser possível um entendimento mais amplo, integrado e complexo das trajetórias de estudantes dentro e fora das universidades, incluindo dados sobre empregabilidade dos egressos, por exemplo. Foi nesse contexto que surgiu o Projeto Ecograd, com a proposta de criar um ecossistema da graduação, integrando informações e indicadores de gestão já existentes nas bases públicas de informação, complementados com dados institucionais. O Ecograd se propõe a criar esse sistema de acompanhamento da graduação em nível sistêmico – para todo o sistema das IFES, e para isso a Andifes investiu recursos em parcerias com pesquisadores de algumas IFES para viabilizar o projeto, tendo o Prof. José Jorge Lima Dias Jr. (UFPB) como coordenador do projeto, que ainda envolve equipes na UFPB, UFRPE e UFJF. Com a pandemia, o projeto teve seu início defasado inicialmente, com atividades iniciadas em agosto de 2020, previsão de 12 meses para a entrega final do projeto à Andifes.

Como foi o planejamento do I Workshop?
O workshop foi pensado no sentido de dar visibilidade ao Projeto Ecograd, já em andamento, possibilitando que as equipes gestoras das IFES, reitores, pró-reitores, tenham conhecimento sobre a proposta e o que se pretende desenvolver com o projeto. O workshop também teve convidados externos, como o Inep/MEC e o TCU, para possibilitar uma troca de experiências com órgãos públicos que trabalham com indicadores acadêmicos de gestão e desempenho das universidades.

Qual é a relação do Projeto Ecograd com a evasão?
O projeto Ecograd se propõe a trabalhar com a ideia de um ecossistema da graduação, no sentido de integrar informações e indicadores de gestão já existentes nas bases públicas de informação, complementados com dados institucionais, além de propor novas metodologias e ferramentas para acompanhar esses indicadores. Dentro dos diferentes indicadores, o Ecograd vai trabalhar com questões como diplomação, evasão, retenção, permanência estudantil, empregabilidade dos egressos, e diversos outros fatores que podem gerar informação e entendimento dos processos acadêmicos, e o planejamento de estratégias e políticas acadêmicas pelos gestores.

Como essa pauta foi tratada durante o workshop?
Em um dos módulos do projeto Ecograd, foram apresentados dados preliminares que demonstraram que a forma de avaliar esses indicadores de evasão, por exemplo, muda bastante as taxas de evasão obtidas. Ou seja, há múltiplas perspectivas e entendimentos que podemos ter dos indicadores, a depender de questões conceituais e práticas de seleção variáveis mais adequadas, e formulação dos indicadores. O que o Ecograd propõe é exatamente uma perspectiva mais sistêmica e que tente abraçar a complexidade desses temas, entendendo que a evasão e a retenção resultam de questões individuais acadêmicas e socioeconômicas de estudantes; questões institucionais como aspectos pedagógicos, de infraestrutura pertinentes ao curso e à instituição; até questões mais abrangentes como a empregabilidade e o mercado de trabalho, e as políticas públicas adotadas pelo governo federal.

Professor José Jorge Lima Dias Jr é coordenador do Projeto EcoGrad.

Esse seria um dos grandes desafios do ensino superior público?
Evasão e retenção são fenômenos mundiais, acontecem em países ricos, em países em desenvolvimento. Cursos de algumas áreas tradicionalmente apresentam maiores níveis de evasão e retenção, por exemplo, cursos de exatas e tecnológicas, enquanto que cursos como de medicina apresentam baixos níveis de evasão e retenção. O desafio é entender esses fenômenos complexos, no contexto da realidade brasileira e da realidade local de cada uma das IFES. O EcoGrad deve propiciar elementos e dados para que as IFES e o sistema federal de ensino possam buscar o entendimento desses fenômenos, além de também propiciar o compartilhamento de boas práticas e estratégias de gestão acadêmica entre as universidades federais.

O que o Estudo sobre evasão, retenção e diplomação nas IFES revelou?
O estudo está em andamento ainda, e deverá nos dar informações mais detalhadas sobre o percurso acadêmico dos estudantes, suas dificuldades e sucessos. Somente teremos acesso a esses resultados quando o Projeto estiver mais próximo de estar completo. O que podemos adiantar, por enquanto, é que a complexidade do fenômeno da evasão repercute também em suas formas de verificação e medição.

E quanto ao Estudo sobre indicadores de qualidade de cursos?
Novamente, a ideia é criar um ecossistema onde cada um desses conjuntos de dados e de avaliações podem ser integrados e olhados em conjunto. Os indicadores de qualidade de cursos são provenientes do Inep/MEC, e contempla indicadores como o Enade, Conceito Preliminar de Curso (CPC), Índice Geral de Cursos, entre outros. O estudo propõe uma forma de trabalhar com esses dados e informações que privilegiem a identificação de grupos de IFES com características mais semelhantes, por meio de “clusters”, evitando análises comparativas e classificatórias entre as diferentes instituições. Desse modo, pretende-se apresentar esses indicadores sob outros olhares e dimensões, permitindo agregar valor na análise das IFES.

O que os senhores podem falar a respeito do mapeamento de políticas do ensino superior e boas práticas de gestão?
Esta seria a parte mais qualitativa do estudo, com a identificação de políticas relevantes para o ensino superior federal, como por exemplo, o programa de expansão das universidades federais (REUNI), políticas de democratização de acesso e permanência estudantil, como a Lei de Reserva de Vagas (as “cotas”), o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e o Programa Nacional de Permanência Estudantil (PNAES), entre outras. Assim, a ideia é mapear essas políticas e relacioná-las com os dados quantitativos, posicionando esses dados dentro de um contexto sócio-histórico. Sobre as boas práticas de gestão, a proposta é identificar políticas e estratégias das IFES para lidar com a gestão acadêmica. Por exemplo, estratégias para reduzir evasão e retenção nas universidades, políticas para favorecer e garantir a ocupação das vagas de ingresso nos cursos de graduação, políticas e ações afirmativas para garantir acesso e permanência de grupos minoritários e/ou tradicionalmente excluídos do ensino superior, etc. A ideia é que uma instituição tenha a possibilidade de conhecer as ações que deram certo em outras instituições para lidar com fenômenos comuns e complexos, como a evasão e a retenção.

Quais foram os principais encaminhamentos do workshop?
Foi uma experiência importante para que a Andifes e o Cograd pudessem compartilhar a proposta do Projeto EcoGrad em suas instâncias internas, assim como junto a órgãos públicos que trabalham com indicadores de desempenho (como o TCU) e de qualidade dos cursos de graduação (como o Inep/MEC). Com maior publicização do projeto, abrem-se também oportunidades para troca de ideias, novas parcerias, e sugestões para continuar aprimorando o projeto.

Haverá novas atividades como essa?
Imaginamos que deve haver mais um evento como este workshop por volta de março de 2021, além de um evento maior quanto o Projeto for finalizado, divulgando as ferramentas de gestão e os recursos que serão disponibilizados para a Andifes e suas IFES afiliadas.

Como a senhora avalia as ações do Cograd durante sua gestão?
Esta gestão do Cograd tem a marca principal da pandemia e seus impactos sobre as universidades, especialmente no que se refere às atividades de ensino, no âmbito dos cursos de graduação. A grande maioria das ações do Cograd em 2020 acabou girando em torno de discussões sobre o ensino remoto emergencial, diante da impossibilidade de desenvolver ações presenciais por um período prolongado. Compartilhamos no grupo do Cograd muitas estratégias e normativas, sobre como as IFES estavam lidando com este período atípico, que soluções estavam sendo propostas para os novos desafios – sejam questões de organização pedagógica e administrativa do ensino remoto presencial; flexibilizações de calendário e de procedimentos acadêmicos para lidar com a excepcionalidade do momento; questões relacionadas à permanência estudantil e inclusão digital (fizemos até uma reunião conjunta entre Cograd e Fonaprace para discutir essas questões de intersecção entre os nossos Colégio e Fórum); ações e estratégias voltadas para a formação docente para o ensino remoto, etc. Também iniciamos a discussão sobre protocolos e planejamentos para um eventual retorno seguro de algumas atividades presenciais, quando as condições sanitárias e epidemiológicas permitirem. Muitas dessas discussões foram também compartilhadas junto à Comissão de Desenvolvimento Acadêmico da Andifes, assim como em reuniões dos fóruns e colégios ligados à Andifes e em seminários temáticos que aconteceram durante o ano de 2020. As ações do Cograd sempre foram muito coletivizadas e partilhadas junto aos pró-reitores de graduação, com ampla participação e discussão com os (as) coordenadores (as) regionais do Colégio. Embora limitados aos encontros virtuais, depois de uma única reunião presencial no início de fevereiro, o grupo do Cograd interagiu de maneira intensa durante todo o ano, e construiu coletivamente levantamentos e repositórios de normativas referentes ao ensino remoto emergencial e às estratégias das IFES para enfrentar os desafios impostos.

Quais os desafios para os próximos coordenadores?
Alguns dos desafios deste ano de 2020 devem perdurar até parte de 2021, ao observarmos um recrudescimento da epidemia do Covid-19 em todo o Brasil. Embora já tenhamos acumulado alguma experiência nas IFES para lidar com o ensino remoto emergencial, é possível que tenhamos um desgaste acumulado devido às demandas pessoais e de trabalho, neste período de trabalho e ensino remoto, e isso demandará aprimoramento das nossas práticas acadêmicas e de gestão. Por outro lado, 2021 deve ser o ano da retomada das atividades presenciais nas IFES, o que certamente trará muitos desafios e demandas para o planejamento de um retorno presencial, em fases, provavelmente ainda restrito e limitado em sua capacidade. Adicionalmente, as IFES lidarão com restrições orçamentárias significativas em 2021, o que tornará as adaptações e adequações de infraestrutura e de serviços, para adequação a normas de biossegurança, ainda mais desafiadoras. Tenho certeza que o Cograd continuará sendo um ambiente de trocas e de parcerias, para melhor entendimento dos desafios e para a busca de estratégias para resolvê-los, sempre com solidariedade, empatia, e com o objetivo de garantir a qualidade das nossas universidades públicas, inclusivas e socialmente referenciadas.

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