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Cefet-MG – Cientistas esclarecem dúvidas sobre tipos de vacina e variantes do Coronavírus

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A vacinação lenta no Brasil compete com o receio da população sobre reações adversas e dúvidas sobre efetividade contra variantes do Coronavírus; as pesquisadoras Mariana Drumond (CEFET-MG) e Pamela Mancha Agresti (Faminas) são convidadas para falar sobre o assunto

A vacinação contra a COVID-19 caminha a passos lentos pelo mundo. No Brasil, a realidade não é diferente: apenas 23,42% da população recebeu uma dose do imunizante e apenas 10,87% dos brasileiros completaram as duas, de acordo com balanço de veículos de imprensa, divulgado nessa segunda (7).

A vacina, que é a única alternativa cientificamente comprovada no combate à doença, tem despertado dúvidas sobre sua eficácia diante das variantes do Coronavírus, além disso a desinformação que circula nas redes sociais causa temores sobre reações adversas provocadas pela imunização, diante de um cenário de escassez de doses e risco de uma terceira onda de COVID-19 no Brasil.

Tipos de vacinas, riscos e benefícios, reações adversas, agências regulatórias e variantes do vírus fazem parte de uma conversa que a Coordenação de Jornalismo e Conteúdo (CJC) do CEFET-MG teve com duas cientistas, Mariana Martins Drumond e Pamela Mancha Agresti, para esclarecer à sociedade dúvidas sobre a vacinação contra a COVID-19.

A professora Mariana, subchefe do Departamento de Ciências Biológicas do campus Nova Suíça do CEFET-MG, é pós-doutora em genética de micro-organismos e tem experiência nas áreas de biotecnologia, biologia molecular e desenvolvimento de vacinas de DNA. A professora Pamela é titular da Universidade Faminas (BH), doutora em genética e possui experiência nas áreas de biologia molecular, genética de micro-organismos, imunologia e biologia celular.

CJC: Três vacinas estão sendo utilizadas para imunização contra a COVID-19 neste momento no Brasil: CoronaVac, AstraZeneca e Pfizer. Quais as principais diferenças entre elas?
A CoronaVac é uma vacina desenvolvida a partir do vírus inativado, ou seja, o vírus é incapaz de gerar a doença, pois está “morto”. No entanto, ele mantém determinadas regiões que são capazes de serem reconhecidas pelo sistema imunológico humano, o que permite a produção de anticorpos específicos, oferecendo proteção ao hospedeiro.
A vacina AstraZeneca é uma vacina baseada em uma técnica de biologia molecular chamada “vetor viral”. Nessa abordagem, o vírus causador da gripe em chimpanzés (um adenovírus inofensivo para humanos) é modificado para que não se multiplique ou cause doença. Esse adenovírus tem a capacidade de produzir a proteína Spike, uma das proteínas do SARS-CoV-2 (causador da COVID-19), que ajuda o vírus a infectar as células do organismo. Quando esse adenovírus produz a proteína Spike, as células do sistema imunológico do organismo irão reconhecê-la e, assim, poderão ser capazes de produzir “defesa” contra ela, através da produção de anticorpos, contra uma futura contaminação pelo SARS-CoV-2.
A vacina da Pfizer, também baseada na biologia molecular, utiliza uma técnica que chamamos de RNA mensageiro. Nela, uma molécula de RNA mensageiro (um tipo de ácido nucleico) é produzida e capaz de “carregar” a informação genética de uma das proteínas do SARS-CoV-2. Quando esse RNA mensageiro é administrado no ser humano, ele utiliza estruturas do próprio organismo (uma organela chamada ribossomo, responsável por produzir as proteínas) para produzir a proteína imunogênica do SARS-Cov-2, ou seja, uma proteína que seja capaz de gerar defesa, anticorpos. Quando essa proteína é produzida pelas próprias células do corpo, o organismo é capaz de reconhecê-la e gerar anticorpos contra ela, ou seja, se a pessoa entrar em contato com o vírus, já será capaz de combatê-lo.

CJC: A vacinação com doses da AstraZeneca chegou a ser interrompida em alguns países por suposta relação com casos de trombose. Os benefícios da vacinação superam os riscos? Por quê?
Sim, os benefícios superam os riscos, e muito! É importante lembrar que todas as vacinas que estão em uso (no Brasil e em outros países do mundo) passam por uma rigorosa análise para serem autorizadas. A vacina da AstraZeneca demonstrou alta eficiência na prevenção de infecções, o que impacta diretamente nos processos de hospitalização e redução de mortes. Além disso, a própria Agência Europeia de Medicamentos sugeriu que a formação de coágulos deveria ser listada como um dos efeitos adversos tido como raros no processo de imunização com a vacina. É importante deixar claro que esses casos de trombose são raros, especialmente quando se leva em consideração o número de pessoas vacinadas frente ao número de casos desse possível efeito adverso. Então, se a maioria das pessoas não apresenta efeitos adversos graves, os benefícios do processo de imunização (que podem ser observados diretamente sobre a taxa de transmissão e hospitalização) são muito relevantes.

CJC: Quais são os efeitos adversos comuns após a vacinação contra a COVID-19? E o que se deve fazer se se apresentar alguma reação diferente da esperada?
Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, os sintomas mais comuns são dores no braço, dores no corpo, calafrios e febre baixa, que normalmente duram de poucos minutos a alguns dias, mas normalmente desaparecem após as primeiras 48 horas da administração da vacina. Podem acontecer também outras reações, como inchaço, coceira, endurecimento no local, náusea, diarreia, dor muscular, tosse, dor nas articulações, coriza, dor de garganta e nariz entupido. Como esses sintomas são leves, a recomendação é que o tratamento seja feito em casa. Esses efeitos adversos são, na verdade, uma reação totalmente favorável de defesa do nosso organismo contra um agente estranho, introduzido com um fim totalmente benéfico, como é a vacinação. Esses sintomas são observados também em outras vacinas, como a da febre amarela, da meningite etc. Caso haja sintomas mais severos, como febre alta persistente, vômito e dores abdominais, a orientação é que um médico seja consultado para avaliação de tratamento a ser feito. São mínimos os pacientes que têm consultado por persistência dos sintomas.

CJC: O organismo apresenta resposta à vacina após quanto tempo, em média, após a administração da primeira dose? O que fazer durante esse período?
O organismo precisa de, em média, 15 dias para apresentar resposta imunológica (ou seja, produzir anticorpos) contra o vírus. Entretanto, é importante enfatizar que as vacinas aprovadas para uso emergencial, através do Programa Nacional de Imunização (PNI), precisam ser tomadas em duas doses, com diferentes intervalos de administração. Então, considera-se que a pessoa está imunizada apenas após transcorrido esse período (15 dias, em média) de administração da segunda dose da vacina. Durante todo o período compreendido entre as administrações da 1ª e 2ª doses é fundamental que se respeitem todas as regras de distanciamento social, etiqueta respiratória e uso de álcool gel e máscara. É importante ressaltar que, mesmo após transcorrido o tempo para geração da resposta imunológica, esses cuidados básicos devem ser respeitados, pois a imunização não protege 100%, ou seja, a pessoa ainda pode ser infectada pelo vírus (mesmo com grandes chances de desenvolver formas leves da doença) e transmiti-lo a outras pessoas, especialmente àquelas que ainda não foram vacinadas. Por isso, é importantíssimo manter os cuidados básicos de distanciamento, bem como o uso de máscaras e álcool gel. Importante salientar que quanto mais indivíduos estiverem vacinados, menor será a circulação viral e, consequentemente, haverá maior proteção da população.

CJC: A CoronaVac ainda não foi aprovada para uso no bloco europeu, a AstraZeneca aguarda aprovação da FDA (Estados Unidos) e a Sputnik V (Rússia) não foi autorizada para uso em larga escala pela Anvisa (Brasil). Quais são os critérios para aprovação de uma nova vacina e por que existem diferenças entre essas agências?
Com relação a esse assunto, é preciso que a gente entenda alguns pontos:
1º: o chamado “uso emergencial” é uma medida adotada pelas agências regulatórias do mundo que leva em consideração que durante uma pandemia não é possível ter informações sobre os danos permanentes que ela potencialmente pode gerar. E, nesses casos, a imunização em massa, feita de forma mais precoce, antes que todas as fases de testes da vacina tenham sido concluídas, gera mais benefícios frente aos riscos iminentes da doença durante a espera pela conclusão de todos os testes dos imunizantes. Assim, os laboratórios enviam às agências reguladoras os resultados preliminares dos seus estudos, explicando, inclusive, qual o público-alvo a ser atendido no processo de imunização (como profissionais da saúde e idosos, por exemplo). Além disso, no uso emergencial, apenas a rede pública é autorizada a comprar e aplicar a vacina, ou seja, todo o processo de imunização só pode ser realizado pelo Estado.
2º: para que uma vacina tenha seu uso aprovado (independentemente se emergencial ou não), ela precisa atender aos critérios estabelecidos pela agência reguladora que a está avaliando (no Brasil, é a Anvisa). Cada uma dessas agências estabelece seus próprios critérios para aprovação ou não do imunizante. A Anvisa, por exemplo, exige que os ensaios clínicos já estejam na fase III (avançada, com participação de milhares de pessoas) e que pelo menos um dos testes dessa fase (normalmente os laboratórios conduzem vários desses testes ao mesmo tempo) já tenha sido finalizado e devidamente analisado. Exige-se também o envio dos dados de segurança pelo menos dois meses após a última dose (que, para a grande maioria dos imunizantes desenvolvidos até o momento, são duas). Com relação aos resultados alcançados, a Agência exige que a vacina apresente, no mínimo, 50% de eficácia. Além de todos esses resultados, o laboratório também deve apresentar um plano de monitoramento para armazenamento das doses (mesmo depois de distribuídas aos serviços de saúde), bem como dos efeitos adversos relatados (o tempo desse monitoramento pode variar), considerando, inclusive, os efeitos adversos tardios, ou seja, aqueles que acontecem mesmo depois de transcorrido um tempo relativamente grande da aplicação do imunizante. Cada agência reguladora tem suas exigências próprias e cabe ao laboratório entregar os documentos solicitados para que a análise possa ser realizada. Muitas vezes, os laboratórios demoram a entregar a documentação completa, o que atrasa o processo de análise. É o que está acontecendo com a CoronaVac, que ainda não teve seu uso aprovado na União Europeia. É importante esclarecer que o fato de um imunizante não ter seu uso aprovado não significa que ele seja proibido, significa apenas que os resultados apresentados pelo laboratório ainda não preencheram todos os critérios e requisitos para que a análise possa ser realizada pela agência reguladora. É o que estamos verificando aqui no Brasil com a vacina russa SputinikV, que já teve seu uso aprovado em outros países, como Argentina, por exemplo. Na ocasião, a Anvisa deixou claro que se a documentação complementar fosse apresentada, o imunizante seria reavaliado e poderia ter seu uso permitido. Essas variações no processo de análise existem porque cada uma das agências é independente para estabelecer os critérios que julga mais importantes na análise do imunizante, levando em consideração os seus perfis populacionais. Embora a maior parte do processo regulatório apresente semelhança entre si, há questões que são específicas e locais, por isso a diferença entre os processos.

CJC: O que são variantes do novo Coronavírus? Elas representam ameaça às vacinas aplicadas atualmente no Brasil? Por quê?
As variantes ocorrem para grande parte dos vírus (como o da gripe, por exemplo) e não apenas com o SARS-CoV-2. São pequenas alterações que o vírus (e outros micro-organismos) sofrem durante seu ciclo de vida que podem fazer com que o sistema imunológico do hospedeiro não reconheça com a mesma efetividade que o reconhecia e, consequentemente, não consiga combatê-lo. Funciona assim: quando um vírus, ou qualquer outro agente exógeno (termo que a gente usa para algo que não pertence ao organismo) entra em contato com o organismo, nosso sistema imunológico reconhece esse agente como não sendo próprio dele e começa uma série de respostas para tentar eliminá-lo. Essas respostas são, em um primeiro momento, inespecíficas, ou seja, os processos são os mesmos para qualquer agente exógeno, posteriormente se desenvolve uma resposta específica, própria para aquele agente, através da produção de anticorpos e geração de memória imunológica. Então, quando esse agente entrar em contato novamente com o organismo, ele já o reconhece e rapidamente o combate. Quando falamos da variante, dependendo da “mudança” que acontece, os anticorpos que foram produzidos no primeiro contato não “funcionam”, porque o organismo não entende que o agente é o mesmo. Então, o processo de resposta imunológica específica precisa ser reiniciado. O que sabemos até agora é que grande parte das vacinas aprovadas continua sendo eficiente (em diferentes percentuais) para essas variantes, o que é uma excelente notícia. Caso seja necessário desenvolver outra vacina, com apenas alguns ajustes, será possível modificar as plataformas existentes, o que tornará o processo bem mais rápido. O importante agora é que o monitoramento às variantes do vírus continue sendo realizado, bem como os testes dos imunizantes contra essas novas variantes, para assegurar um pouco de tranquilidade para a população.

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