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Cortes de verbas na ciência ameaçam o futuro do país – Por Sandra Regina Goulart Almeida

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Investir em ciência é o passaporte mais seguro para a soberania nacional e a melhoria de vida da população. Esta quinta-feira (8), data do Dia Nacional da Ciência, é momento propício para refletirmos sobre os rumos dessa área no país.

Nosso sistema de ciência e tecnologia (C&T) alcançou proeminência nas últimas décadas, o que possibilitou ao Brasil ingressar no ranking mundial das nações mais produtivas no campo da pesquisa.

Relatório produzido neste ano pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), põe o Brasil em destaque na produção científica mundial (13o lugar), classificação que contabiliza o número de artigos científicos publicados em revistas internacionais.

Estudos recentes do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) revelam ainda que 19 dos 25 maiores depositantes de patentes no país são universidades públicas, responsáveis por mais de 95% da produção científica do Brasil.

A UFMG lidera a lista de universidades com maior número de patentes e recebeu recentemente o prêmio da Clarivate Analytics por isso.

A ciência fundamenta a existência humana. A corrida pela vacina contra a Covid-19 é um exemplo de sua centralidade em múltiplos aspectos do nosso cotidiano.

O Brasil tem várias candidatas vacinais, e uma das mais avançadas está em testes na UFMG. Países que saíram à frente nessa corrida conseguem, de um lado, imunizar a sua população e, de outro, exportar as vacinas e os insumos necessários à sua fabricação para outras nações, o que dá a eles condições de exercer uma espécie de soft power, ou seja, a capacidade de influenciar os rumos da geopolítica internacional de forma decisiva e colaborativa.

No entanto, esse robusto, mas ao mesmo tempo frágil sistema de ciência e tecnologia —formado por órgãos como MCTI, MEC, agências de fomento e universidades públicas— vem sofrendo sucessivos cortes de recursos que debilitam o desenvolvimento científico do país.

O contingenciamento das verbas das universidades federais e o corte de bolsas e de financiamentos da ciência brasileira colocam em risco o futuro do Brasil, ameaçando também a permanência de muitos de nossos pesquisadores, que se têm deslocado para o exterior à procura de mais investimentos em suas pesquisas.

Nações com projetos de desenvolvimento de longo prazo são as que mais dão importância à ciência. Elas aplicam recursos de forma contínua em seu sistema de C&T, pois têm a clareza de que só ampliarão seus índices de desenvolvimento econômico, social e humano se a ciência ocupar um lugar central em suas políticas públicas.

Enquanto os Estados Unidos e a Alemanha investem 3% de seu PIB em atividades de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, o Brasil, cujo PIB já é menor do que o desses países, aplica menos de 1%.

O Brasil está em uma encruzilhada. Seu sistema de C&T alcançou, neste século, um grau de maturidade sem precedentes na história. Por outro lado, esses avanços estão ameaçados, pois os aportes de recursos têm caído drasticamente.

Se o Brasil alimenta a ambição de ingressar no seleto grupo de nações desenvolvidas, que oferecem a seu povo perspectivas de oportunidades, bem-estar, igualdade e justiça social, ele não pode negligenciar o imprescindível investimento em ciência e tecnologia.

*Sandra Regina Goulart Almeida é reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

*Artigo originalmente publicado na Folha de SP

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