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Uso do kefir no tratamento de Alzheimer é pesquisado pela Universidade Federal de Uberlândia

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Ensaios do professor Carlos Ueira Vieira e da biotecnóloga Letícia Leandro Batista foram relatados em artigo publicado em maio deste ano na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Demências como o Alzheimer já atingem 45 milhões de pessoas no mundo e ainda não há tratamentos que atuem diretamente na doença — Foto: Getty Images via BBC

Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) estudam o uso do kefir no tratamento de Alzheimer. Os ensaios foram relatados em artigo publicado em maio deste ano na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Probiótico conhecido e popular, com dezenas de receitas caseiras, o kefir contém diversas bactérias e leveduras diferentes que, ingeridas, trazem benefícios à saúde. Ao fermentar o leite e criar uma espécie de iogurte, os diferentes microrganismos produzem centenas de moléculas diferentes, e os pesquisadores da UFU foram pioneiros em identificar essas moléculas.

“Acreditamos que o kefir atue na doença de Alzheimer através de vias antioxidantes e anti-inflamatórias, porém, mais estudos são necessários para confirmar essas hipóteses”, explicou Carlos Ueira Vieira, professor do curso de biotecnologia. Ele e a biotecnóloga Letícia Leandro Batista testam a utilização do kefir em moscas-das-frutas com pedaços de DNA humano.

A doença de Alzheimer é uma das causas mais comuns de demência entre idosos, que pode acarretar uma perda motora-cognitiva e, consequentemente, o desgaste emocional e a codependência.

Os estudos

Para fazer a testagem do probiótico no tratamento da doença, foram usadas as popularmente chamadas moscas-das-frutas. O inseto da espécie Drosophila melanogaster foi escolhido por ser um invertebrado de ciclo de vida curto, ter baixo custo de manutenção e produzir grande número de indivíduos. O genoma da mosca-das-frutas tem 60% de semelhança com genoma humano e aproximadamente 75% dos genes responsáveis por doenças humanas têm um correspondente nela.

Mosca da fruta, da espécie Drosophila melanogaster — Foto: Qinyang Li/Divulgação

O sequenciamento do genoma humano e o da mosca-das-frutas, aliado a novas técnicas de engenharia genética, possibilita construir moscas com pedaços de DNA humano para produzir um modelo de estudo, como foi o caso do trabalho da pesquisadora da UFU.

Uma das principais hipóteses do desenvolvimento da doença de Alzheimer é em relação ao acúmulo de peptídeos no cérebro, em que há a participação principalmente de duas proteínas. O acúmulo desses peptídeos é tóxico para o cérebro, o que gera a demência que é característica da doença.

As moscas usadas carregam os genes humanos para essas proteínas. Assim, quando esses dois genes são transcritos, geram-se os peptídeos no cérebro da mosca e é possível mimetizar o que acontece no cérebro de uma pessoa com Alzheimer.

Para entender se o kefir teria um efeito positivo nas moscas, ele foi utilizado em duas formas: em natura, como iogurte, e como fonte de moléculas, metabólitos. Na primeira forma, tem-se a presença dos microrganismos naturais do kefir, enquanto na segunda apenas as moléculas.

Além disso, as moléculas também foram divididas em quatro grupos diferentes e testadas separadamente. Desse modo, foi possível ter uma noção de qual grupo de moléculas teria uma ação melhor contra a doença na mosca-das-frutas e continuar os estudos futuramente em animais mais complexos.

Resultado
Os pesquisadores concluíram que o kefir em iogurte é benéfico para o modelo, melhorando a capacidade motora das moscas e diminuindo a presença de neurodegeneração, o que aumentou a sobrevida delas. Em contrapartida, as moléculas isoladas do kefir conseguiram gerar resultados ainda mais eficazes.

Iniciação científica
A ideia do trabalho começou como um projeto do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), desenvolvido no Laboratório de Genética da UFU. Letícia Batista, até então, aluna da graduação teve uma disciplina com o professor Vieira e logo se interessou no ramo da pesquisa.

Letícia já havia tido experiência com os grãos de kefir e, junto a professor, resolveram fazer estudos preliminares com o iogurte e tiveram resultados animadores, o que os levou a aprofundar na pesquisa.

No fim da iniciação científica, os pesquisadores fizeram parceria com outros cientistas da UFU e de fora da universidade, como do Instituto do Coração de São Paulo (InCor) e da Harvard Medical School. Processo fundamental para utilizarem várias técnicas diferentes no trabalho e encontrarem a melhor forma de testar o tratamento.

Teste de escalada. Do lado direito, moscas saudáveis escalam mais rápido, e do lado esquerdo, moscas modelos de Alzheimer escalam mais devagar — Foto: Carlos Ueira Vieira/Arquivo pessoal

Além de Batista e Vieira, estão presentes na pesquisa os membros do Laboratório de Genética da UFU, Serena Mares Malta, Luiza Diniz Ferreira Borges, Jessica Regina da Silva, Lays Oliveira Rocha e Tamiris Sabrina Rodrigues; os do Instituto de Biotecnologia (Ibtec), Heitor Cappato Guerra e Foued Spindola; além de Kallyandra Padilha, do Incor; e Gabriela Venturini e Alexandre da Costa Pereira, da Harvard Medical School.

Atualmente, Letícia Batista faz doutorado em neurobiologia, na Johannes Gutenberg Universität Mainz, na Alemanha, e continua usando as moscas-das-frutas em estudos, mas agora, no processamento olfativo.

“Sinto que a preparação que tive fazendo pesquisa no Laboratório de Genética da UFU foi crucial para ter conseguido essa oportunidade [de doutorado na Alemanha]. Aprendi o processo científico muito antes do que o esperado para o padrão europeu, e isso me abriu portas”, contou.

Os pesquisadores pretendem continuar os estudos acerca do kefir, mas agora com o acompanhamento mais distante de Batista em função do doutorado no exterior. Além de identificar os metabólitos, eles também sequenciaram todo o DNA presente no kefir e montaram o genoma de algumas bactérias.

Esse novo trabalho é realizado com o professor Anderson Rodrigues dos Santos, da Faculdade de Computação (Facom) da UFU, especialista em bioinformática, o que permitiu investigar como algumas dessas moléculas promissoras são produzidas e reproduzir o processo.

Fonte: Portal G1 Triângulo e Alto Paranaíba

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