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Pesquisa da UFAL revela impacto das secas na degradação das terras da Amazônia

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As secas prolongadas na Amazônia impulsionaram o desmatamento e as queimadas, acelerando o processo de degradação das terras na Amazônia. Foi o que revelou um estudo coordenado por pesquisadores do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O trabalho realizado por cientistas do Brasil, Venezuela, Estados Unidos da América, Índia e Nepal avaliou como a seca afetou o processo de degradação das terras na bacia do rio Amazonas no período de 2001 a 2020. O estudo deu origem a um artigo publicado no periódico internacional Frontiers Earth Sciense, revista suíça de grande impacto científico.

“Os resultados do estudo revelaram que cerca de 757 mil quilômetros quadrados da bacia amazônica, que corresponde a uma estimativa de 12,5% do total, tornaram-se terra degradada apenas nas últimas duas décadas”, alerta o coordenador do Lapis, professor Humberto Barbosa. Ele explica que “os resultados do estudo forneceram fortes evidências de que durante secas severas, o indicador de degradação da terra da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) detectava um maior percentual de terras degradadas quando comparado a condições sem ocorrência de seca”.

De acordo com a pesquisa do Laboratório, as maiores áreas de degradação da terra foram identificadas nas porções Sul, Sudoeste e Leste da floresta amazônica, especificamente, nos estados do Pará, Mato Grosso, Amazonas e Rondônia, onde predominam grandes monoculturas e pastagens.

Atualmente, afirma o docente que é doutor em Ciências do Solo e Sensoriamento Remoto, a degradação das terras é considerada um dos mais graves problemas ambientais. “A UNCCD define esse conceito como a redução da produtividade da terra devido a uma combinação de pressões, incluindo variações climáticas e atividades humanas”, explica Barbosa.

Dados de monitoramento feito pelos pesquisadores têm mostrado o crescente processo de degradação da floresta amazônica, sobretudo, em razão de atividades humanas como desmatamento de grandes áreas. Todavia, poucas pesquisas haviam analisado como as secas prolongadas potencializam a degradação da terra na região.

“O estudo publicado na Frontiers Earth Sciense, coordenado por pesquisadores do Lapis, concluiu que as secas prolongadas contribuíram para aumentar a taxa de desmatamento nos últimos anos, observada a partir de imagens de satélite, levando à aceleração da degradação das terras na bacia amazônica”, diz.

Diante dos alertas de cientistas do mundo todo sobre o perigo das mudanças climáticas, Barbosa reitera que a preocupação com a Amazônia não é por acaso. “A floresta amazônica desempenha um papel essencial na regulação do clima global. Recentemente, essa região enfrentou secas extremas, seguindo uma tendência de aumento desses eventos climáticos em diferentes áreas. Em 2005 e em 2010, a bacia amazônica sofreu duas secas sem precedentes. Ambos os eventos causaram grandes perdas por meio de incêndios florestais”, relata o pesquisador da Ufal.

Expansão da fronteira agrícola

Barbosa informa que o processo de degradação da terra ocorreu em razão de uma queda significativa na dinâmica da produtividade da terra no bioma Amazônia, seguido pela tendência de queda combinada na produtividade da terra, degradação do Carbono Orgânico do Solo (CSO) e degradação da cobertura vegetal da terra.

“A maioria dessas terras degradadas circunda lavouras e pastagens, apresentando apenas degradação na produtividade da terra. Nesse contexto, podem corresponder à expansão da fronteira agrícola durante o período de 2001 a 2020”, explica.

Segundo o pesquisador, o desmatamento assume o primeiro lugar no processo de degradação da terra na bacia amazônica. “Cerca de 82% da degradação da terra no bioma se deve, predominantemente, à conversão de áreas de floresta em terras agrícolas”, afirma.

Realização do estudo

Para avaliar o estado da degradação da terra na Amazônia e sua relação com a severidade das secas prolongadas, o professor da Ufal conta que foram utilizados três índices de seca, produtos de monitoramento baseados em dados de satélites. São eles: Índice Padronizado de Precipitação (SPI), Índice Padronizado de Precipitação-Evapotranspiração (SPEI) e Índice de Severidade da Seca de Palmer (scPDSI).

“Esses indicadores de seca foram combinados com o indicador Sustainable Development Goal (SDG), adotado pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD). Esse método, usado para monitorar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), permite uma avaliação abrangente dos impactos da degradação da terra, devido ao seu caráter multifatorial e escalabilidade”, informa.

O indicador de terra degradada da UNCCD é baseado em três subindicadores: 1) tendência de mudança da cobertura da terra; 2) tendência de mudança na produtividade da terra a longo prazo, derivada do Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI) anual; e 3) tendência dos estoques de Carbono Orgânico do Solo (COS). “Durante o estudo, esses três subindicadores foram integrados para gerar o mapa de degradação da terra na Amazônia”, explica o professor.

Impactos da seca

Os resultados da pesquisa do Lapis também revelaram uma característica interessante quanto aos impactos da seca sobre a degradação das terras na Amazônia.

Embora as áreas de floresta conservada tenham sido expostas à alta severidade das secas durante o período da pesquisa, elas apresentaram uma incidência relativamente baixa de degradação (20% delas). Esse resultado implica que as regiões florestais apresentam maior resiliência às secas em relação a outros tipos de cobertura da terra, em termos de mudança no NDVI anual.

“Essa evidência está alinhada aos dados da literatura científica disponível. Estudos anteriores já sugeriam que durante secas prolongadas, a fenologia da floresta tropical foi impulsionada, principalmente, pela disponibilidade de água no solo e outras estratégias de adaptação. Alguns mecanismos, como o fechamento dos estômatos, evitam a perda excessiva de água, utilizada pelas plantas”, explica Barbosa.

O pesquisador comenta que o aumento da disponibilidade de missões de satélite, dedicadas à observação da Terra, permitiu o desenvolvimento de índices para monitorar a seca em grandes regiões. Áreas com acesso limitado a dados de campo, como é o caso da bacia amazônica, são especialmente beneficiadas.

“A seca é um fenômeno complexo para se monitorar em razão das suas várias características-chave, tais como intensidade, extensão espacial, frequência e duração. Além disso, existem quatro diferentes tipos de secas: meteorológica, hidrológica, agrícola e socioeconômica. Existem vários indicadores para se avaliar atributos específicos de uma seca. Porém, ainda não existe um índice universal para monitorar e quantificar a complexidade do fenômeno”, esclarece Barbosa.

O professor argumenta que a publicação do artigo avança nas estratégias de monitoramento, ao permitir fazer uma avaliação abrangente do fenômeno, integrando vários índices de seca. “Essa integração possibilitou capturar processos que não são aparentes, devido à complexidade das interações vegetação, água e atmosfera”, afirmou.

Mais informações sobre a pesquisa podem ser conferidas neste endereço

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