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A ciência da nossa presença – Por Márcia ​Abrahão Moura

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A reconstrução da ciência no Brasil passa necessariamente pela questão de gênero.

A reconstrução da ciência no Brasil passa necessariamente pela questão de gênero. Mais do que isso: deve enfrentar a desigualdade de gênero. Se o assunto é divisão sexual do trabalho, as cientistas atravessam problemas similares às profissionais de outras categorias. Precisam provar que são mais do que já são.

Sou a única reitora na história dos 60 anos da Universidade de Brasília (UnB). Das 74 universidades federais, apenas 14 são comandadas por mulheres. É muito pouco, quando sabemos de nossa presença significativa na academia e na sociedade. Somos também minoria entre pesquisadores que chegam ao topo da carreira científica.

No cotidiano da UnB e da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o debate se dá todos os dias. Estamos começando a organizar as experiências das políticas para mulheres nas universidades dirigidas por reitoras, com o objetivo de expandir para as demais.

Flávia Biroli, pesquisadora e professora de ciência política que muito nos inspira na UnB e nos deu a honra de abrir o último semestre letivo, lembra sempre que a paridade de gênero, além de garantia de direitos humanos, qualifica as democracias —e delas é princípio fundamental. Nesse sentido, nos últimos anos o Brasil vem se furtando a enxergar a realidade de meninas e mulheres, trazendo sérios riscos para a democracia.

Ganhamos menos, participamos menos, temos menos direitos. Em termos de educação, economia, saúde, trabalho, renda e política, a diferença entre homens e mulheres no país, contabilizada pelo Fórum Econômico Mundial em 2021, é de aproximadamente 30%. E há em curso um projeto sistemático de estigmatização ou apagamento da discussão sobre essa lacuna.

Daí a importância de as próximas eleições trazerem esse tema à tona. Ou o país percebe nossa existência ou continuará a promover vulnerabilidade em larga escala e esconder uma violência sofrida no corpo, na experiência do dia a dia.

Na UnB, instalamos uma Câmara de Direitos Humanos para lidar com a questão de forma permanente e democrática, e criamos a Secretaria de Direitos Humanos, que agora abriga a Coordenação de Mulheres. Em nossa comunidade de mais de 58 mil pessoas, somos maioria entre estudantes de mestrado (51%) e doutorado (53%), e também entre técnicas (51%). Apenas entre docentes as mulheres são minoria (45%).

Embora persistam desigualdades no ambiente acadêmico, há bastante empenho para uma inserção efetiva. A participação das estudantes da UnB em pesquisa nos enche de esperança: 65% no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e 67% no Programa de Iniciação Científica em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação. Além disso, dominam as empresas juniores: 70% têm presidentes mulheres e 65% em cargos de liderança.

Se nós, mulheres, vamos decidir as eleições, como apontam sondagens diversas, passou da hora de ocupar espaços de decisão e influenciar diretamente para termos um país menos agressivo, menos opressor. Queremos um lugar aberto à liberdade sobre o corpo, igualitário nas condições de trabalho, justo nos direitos sobre a maternidade, diverso nas manifestações identitárias e solidário com as pesquisadoras, mães ou não.

Por isso e para isso, estamos atentas às estratégias de candidatas e candidatos. E não vamos abrir mão de estar à frente desse processo. Não mesmo.

*Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo, escrito para a campanha #ciêncianaseleições, que celebra o Mês da Ciência. Em julho, colunistas cedem seus espaços para refletir sobre o papel da ciência na reconstrução do Brasil.

*Márcia ​Abrahão Moura é reitora da Universidade de Brasília (UnB). 

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