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Para celebrar a verdadeira independência

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Exatamente hoje ocorrem as celebrações dos 200 anos da independência do Brasil. Como em todas as ocasiões celebratórias, nesta nossa data nacional ocorrem apropriações simbólicas de toda a ordem, e o passado é reinventado para servir a propósitos ligados ao nosso presente. É o momento, então, em que convém lembrar que a independência teve menos a ver com atos de heroísmo individual do que com a negociação interna das elites locais; que o famoso quadro de Pedro Américo, que representa o grito heroico do “independência ou morte” às margens do Rio Ipiranga, é, na verdade, a representação de uma mitologia (a pintura foi executada somente em 1888); que aqui a independência não teve ares revolucionários, como ocorreu em boa parte da América espanhola pela mesma época, e teve mais a ver com a continuidade da mesma dinastia da metrópole na antiga colônia; que, aliás, o nosso D. Pedro I logo abandonaria o Brasil para assumir o trono em Portugal, como D. Pedro IV; que a independência, enfim, não acabou com a presença massiva da escravidão (ela permaneceria até o final do século), da pobreza e de uma brutal desigualdade que em grande medida desconhecia uma cultura de direitos.

Em suma, há muito pouco heroísmo, há ufanismo de sobra e, de outro lado, muita complexidade histórica a analisar. Mas, se o tema é o da independência, que a efeméride valha para alguma coisa: relembremos que o Brasil independente nunca articulou, durante todo o império, a criação de uma universidade no Brasil. As nossas elites, na época, iam fazer seus cursos em Paris ou em Coimbra, ou em alguma das poucas faculdades isoladas (de direito, medicina e engenharia) que tinham sido criadas por aqui. Ao contrário do que ocorria nas outras partes do nosso continente, a América portuguesa só veria a criação de universidades no século XX, já sob o regime republicano. O atraso, a ignorância e a incivilidade continuaram a ser cultivados aqui com renitência, e a “independência” nada mudou esse contexto.

E, além de relembrar o que contribuiu ou aquilo que foi indiferente para o nosso atraso, parece ser um momento importante para afirmar o seguinte: a independência dos brasileiros, a sua verdadeira independência, depende, hoje, das suas universidades, como dependia delas no passado. As universidades podem dar as condições para a inclusão de parcelas historicamente excluídas e que nunca participaram da “repartição do bolo” nacional. Elas possibilitam as formas de emancipação mais necessárias: a intelectual, científica e tecnológica. Universidades fortes definitivamente deixam o atraso para trás: viabilizam soberania nacional, pavimentam o desenvolvimento econômico, fomentam cultura, arte e sensibilidade, germinam civilidade e inteligência. Tudo o que precisamos hoje com mais urgência.

Então, no dia das celebrações do bicentenário da independência brasileira, em meio a tantas mitologias e apropriações simbólicas indevidas, aproveitemos para dizer com força: viva as universidades brasileiras, veículos verdadeiros de emancipação, que tanto podem contribuir para um futuro independente do Brasil!

Ricardo Fonseca
Presidente da Andifes

Brasília, 7 de setembro de 2022

 

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