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A claridade também cega – Por Luiz Roberto Liza Curi

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A invisibilidade está presente em contos clássicos de reputados autores. De Herbert George Wells, veio um clássico que deu origem a vastidões cinematográficas. Nele as vantagens da invisibilidade se transformam em desvantagens, e as possibilidades, em limites. Mais tarde, Jack London trataria da invisibilidade como um atributo da extrema claridade ou da absoluta escuridão. O conto alcança o paroxismo científico na disputa intelectual e física entre dois jovens cientistas que acabam, invisíveis, se matando. Wells acreditava na ciência. London era um construtor de pesadelos. Para tormento do primeiro, a invisibilidade não foi provada; já os pesadelos perduram. Mas quais são as invisibilidades que mais nos assombram?

Pelo menos desde 1750, data de início da Revolução Industrial, o conhecimento foi coadjuvante de tecnologias produtivas que mudaram a economia e a sociedade ocidental. Hoje não há economia nacional que se sustente sem um sistema educacional universal e de qualidade. Essa visibilidade vem sendo iluminada há séculos. Amargamos, no entanto, uma trajetória recente de queda de aprendizado na educação básica e pública.

De 2017 a 2021, o sistema de avaliação da educação básica nos revela perdas que alcançam mais de 70% de jovens e crianças excluídas do aprendizado. Em 2017, quase 25% dos estudantes estavam no nível zero de aprendizado. Em 2019, 95% dos diplomados não sabiam matemática correspondente ao ensino médio. Em 2021, a avaliação acrescenta a queda abrupta no aprendizado de língua portuguesa já no segundo ano do ensino fundamental.

Crianças que voltariam para a fase de alfabetização, mas que na verdade não voltam, continuam e continuam, se tornam jovens e se formam no ensino médio sem conhecimento essencial para o que quer que seja. Não obstante, apenas 40% desses diplomados ingressam no ensino superior e continuam e se diplomam. Não houve luz suficiente ao longo dos anos para iluminar essas questões? Ao recusar o manto diáfano da fantasia, acerta o ministro atual em priorizar a educação básica.

As instituições de educação superior, por sua vez, agregam a essa trajetória mais névoa e opacidade. No caso das públicas, a intensa restrição de recursos em 2022 quase as paralisou. Em geral, as instituições são expostas a um ordenamento de regulação e avaliação burocrático, fixado em êxitos passados, mas conservador em relação aos desafios futuros, que acabaram por favorecer a manutenção de modelos curriculares atrasados, conteudistas, amparados em memórias voláteis, inflexíveis, que afastam o ensino das expectativas da demanda social e econômica, que ignoram a inovação e não estimulam a vivência, o interesse cultural e desviam do aprendizado focado em competências e habilidades necessárias ao ingresso profissional, à formulação e à reprodução do conhecimento. Não por acaso, recente reportagem do jornal O Estado de S. Paulo indica que 5,4 milhões de egressos da educação superior possuem empregos fora da área de formação e de nível médio ou até mais baixo.

Os estudantes gostariam, em algum momento, de aprender, de serem acolhidos de forma a recuperar os atrasos, de receber diplomas que os insiram em empregos adequados e que estimulem a economia e a renda. Não é por acaso que na educação superior a evasão alcance 61% nas instituições particulares e cerca de 50% nas públicas federais e estaduais. Claro que isso não significa que as instituições não tenham qualidade, e muito menos que os docentes não sejam adequados; pelo contrário: a imensa maioria é bem formada e dedicada. Significa sim que, para além do financiamento, a orientação pedagógica curricular arrefeceu e com ela murcharam as expectativas e desejos dos estudantes.

O Brasil ainda sustenta 15% da produção mundial qualificada de ciência, em grande parte desenvolvida em nossas universidades públicas. O prestígio alcançado pela comunidade científica brasileira deveria ter sido o mesmo dispensado por governantes à educação e à universidade pública.

Há quem diga que a claridade pode ofuscar e até cegar. Sabe-se, no entanto, que a visão é um sentido que inspira razões e geralmente é utilizada para enxergar o futuro.

Luiz Roberto Liza Curi é sociólogo e doutor em economia (Unicamp), e presidente do Conselho Nacional de Educação

*Artigo originalmente publicado em Folha de S.Paulo

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