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Educação: quando vamos acordar? – Por Mozart Neves Ramos

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Na 35ª edição do relatório produzido pelo International Institute for Management Development (IMD), que traz o ranking da competitividade mundial mensurada em 64 países, o Brasil ficou em 60º lugar, à frente apenas da África do Sul, da Mongólia, da Argentina e da Venezuela. Esses países são os que apresentam problemas institucionais ou estruturais ainda não resolvidos e que os impedem de progredir de maneira contínua. Por seu lado, os cinco primeiros países nesse ranking foram Dinamarca, Irlanda, Suíça, Singapura e Holanda, pois são aqueles considerados com as melhores condições de crescimento próspero. A Irlanda foi um dos principais destaques desta 35ª edição. O país subiu da 11ª posição no ano passado para a segunda posição. Outros destaques são a Indonésia, que registrou o maior aumento (de 44ª para 34ª), e a Letônia, a maior queda (de 35ª para 51ª).

Segundo esse relatório, entre os principais desafios que impedem o Brasil de ocupar uma posição melhor está o de garantir acesso à educação pública de qualidade. No passado, tentava-se apenas garantir o acesso, deixando em segundo plano a questão da qualidade. No novo cenário mundial, a qualidade é condição sine qua non, sem a qual não vamos longe; estaremos alijados de ocupar posições de destaque em qualquer dos principais rankings mundiais tanto de competitividade quanto de quaisquer outros nos quais a educação ocupe papel central, tais como sustentabilidade e inovação.

Um detalhe importante: os cinco melhores nesse ranking da competitividade estão entre os 20 melhores países (excluindo aqui os resultados de cidades chinesas, como Xangai e Hong Kong) no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Como disse, no passado, olhava-se para os anos de escolaridade, pois há uma relação clara entre esse indicador e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos países — não é uma relação linear, mas, sim, exponencial, que se torna mais acentuada a partir dos oito anos de escolaridade. Isso implica a necessidade de concluir não só o ensino médio, mas também o ensino superior.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc), 2019, do IBGE, mais da metade das pessoas de 25 anos ou mais não completaram o ensino médio em nosso país. No Nordeste, três em cada cinco adultos (60,1%) não completaram o ensino médio. Mas o problema maior está na qualidade do aprendizado — dos que concluem, apenas cinco de cada 100 aprenderam o que seria esperado em matemática na rede pública de ensino em 2021 (QEdu.org.br).

No que se refere ao ensino superior, parece que o país ainda não se recuperou dos efeitos da pandemia. Há um claro esvaziamento nos campus universitários, com ampliação dos níveis de reprovação especialmente nas áreas das exatas e tecnologias, que dependem fortemente da proficiência escolar em matemática, e têm enorme dificuldade de trazer novos alunos, ao menos no modelo tradicional de ensino. E vejam que antes da pandemia o quadro do ensino superior já apresentava fortes sinais de desinteresse dos alunos.

Análises do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação, descrevendo a trajetória dos ingressantes em 2011 e monitorando-os até 2020, revelaram que, de cada 100, 59 desistem do curso. Hoje, as universidades particulares, em sua maioria, estão se sustentando com a receita deixada pela medicina, e quem não a tem já apresenta sérias dificuldades para se manter.

O Brasil precisa urgentemente acordar para a educação. Há uma forte crise que não é mais invisível — pelo contrário, está bem debaixo de nossos olhos; apenas não queremos enxergá-la. Os países mais desenvolvidos estão se reinventando no período pós-pandemia, usando as novas tecnologias no processo de ensino e de aprendizagem e começando a incorporar fortemente a inteligência artificial (IA) à forma como as instituições devem operar e ensinar.

Enquanto ainda não conseguimos oferecer a nossas crianças uma educação com significado capaz de incorporar as novas habilidades tão necessárias para viver neste cenário disruptivo, as chamadas soft skills, já estão sendo construídos robôs para ter empatia artificial com inteligência emocional, escuta ativa e comunicação acolhedora. Esse trabalho, conduzido pelo cientista Scott Sandland, pretende dar aos robôs com tais habilidades a capacidade de serem terapeutas digitais — como ele diz: “Quando ficamos amigos de alguém, entendemos o valor daquela pessoa, os melhores conselhos a dar, as perguntas que podemos fazer”. Enquanto isso, o Brasil ainda não sabe o que fazer com o nosso ensino médio, e os jovens estão à deriva.

*Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

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