UNB – Idiomas sem Fronteiras é braço da internacionalização em universidades

UNB – Idiomas sem Fronteiras é braço da internacionalização em universidades

Programa oferta línguas estrangeiras em instituições públicas de ensino superior. Após corte de bolsas, iniciativa busca alternativas para manter atividades

Estudante no Idiomas sem Fronteiras pela UnB, Eliana Barbosa dos Santos pretende fazer doutorado sanduíche no exterior e, por isso, se prepara para prova de certificação em inglês. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB

A cerca de 200 km de Belém, capital do estado do Pará, encontra-se o município Tomé-Açu, com pouco mais de 63 mil habitantes. Desde 2013, a cidade abriga um dos seis campi da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). A unidade, que é homônima do município, tem a missão de prover mão de obra qualificada para a região. Ademais, é uma entre várias do país a integrar a rede do Idiomas Sem Fronteiras (IsF) – programa que oferta línguas estrangeiras a estudantes, docentes e servidores vinculados a Instituições de Ensino Superior (IES) de todo o país.

A importância estratégica do IsF no Pará é comentada pelo docente Marílio Salgado Nogueira, coordenador da iniciativa na UFRA. “Diferente da capital Belém, em vários municípios nem sequer há presença de cursos de idiomas. É assim na cidade que abriga o campus Tomé-Açu e em outros de nossos campi”, afirma o professor. Outro exemplo, menciona o docente, é o campus Parauapebas, o mais distante da sede da instituição, a cerca de 800 km.

Nogueira acrescenta que “o Idiomas sem Fronteiras permite levar o estudo de línguas estrangeiras para os acadêmicos dessas unidades, o que demonstra a importância estratégica do programa para as ações de internacionalização da Universidade”.

Desde que aderiu ao IsF, a UFRA oferta inglês e português para estrangeiros. A situação, entretanto, mudou após o corte de bolsas destinadas aos professores de inglês, ocorrido em março de 2019. Como várias universidades do país, a UFRA precisou suspender a oferta do idioma. O fomento vinha da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação (MEC). Era destinado a estudantes de licenciatura em Letras-Inglês, que tinham a oportunidade de atuar como docentes no IsF.

“Como a UFRA não tem graduação em Letras-Inglês, a gente convidava graduandos da Universidade Federal do Pará (UFPA) para ministrar as aulas. O programa permitia esse intercâmbio. Com a suspensão do benefício, não foi possível mantê-los. Infelizmente a oferta de inglês está parada”, lamenta Nogueira, na esperança de que haja novas alternativas para a questão. O curso de português para estrangeiros segue ativo, sendo ministrado por graduandos da própria instituição.

PANORAMA – Vice-presidente nacional do inglês no IsF e Diretor da Assessoria de Assuntos Internacionais (INT) da UnB, Virgílio de Almeida explica que o idioma era o único a ser mantido com recursos do governo federal. “Para as outras línguas não há bolsas da Capes. A oferta é mantida por parceiros como embaixadas, institutos dos respectivos países ou pelas próprias universidades”, informa Almeida.

Turma de inglês do IsF no campus Tomé-Açu na Universidade Federal Rural da Amazônia. Foto: Caio Rodrigues

Segundo o gestor, desde que os cortes foram implementados, o núcleo gestor do IsF avalia alternativas para dar continuidade às atividades. “Em diálogo com coordenadores de todo o país, analisamos possibilidades daqui para frente. O programa criou uma grande rede de especialistas no ensino de línguas no Brasil inteiro. Investiu nas universidades, em laboratórios, computadores, material didático e no ganho de expertise. Seria uma pena perder tudo isso”.

Almeida informa que os esforços em prol do IsF estão sendo consolidados em proposta de reconfiguração do programa, apresentada à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em meados de outubro.

“A Andifes aprovou manter o programa em outros moldes. Estamos aprimorando o projeto. A ideia é que as universidades façam adesão ao novo plano de acordo com suas possibilidades. Elas poderão ofertas bolsas de custeio próprio. Se isso não for possível, a ideia é trabalhar com outros benefícios como certificado de extensão de formação docente”, adianta o vice-presidente do IsF.

De acordo com Almeida, o diálogo com o Ministério da Educação também avançou nos últimos meses. “O MEC garantiu a continuidade da plataforma de acesso ao programa, por onde são ofertados os cursos. A rede do IsF mantém a disposição para estabelecer novas parcerias com o órgão, caso ele decida por novos investimentos na oferta de idiomas”.

Outra previsão positiva, segundo Almeida, é a intenção do MEC de adquirir mais testes de certificação de proficiência – provas válidas internacionalmente para comprovar fluência em determinado idioma. A certificação geralmente é exigida por instituições estrangeiras para receber intercambistas. Até o momento, são oferecidas gratuitamente pelo IsF aos inscritos no programa.

Essa oferta pode ser decisiva para acadêmicos que não tenham como arcar com o custo desse tipo de exame, evitando que percam a oportunidade de estudo no exterior por não comprovar fluência em língua estrangeira.

Graduando da licenciatura em Letras-Inglês pela UnB, Vinícius Paz de Araújo vivencia, no IsF, sua primeira experiência formal como docente. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB

EM SALA DE AULA – Eliana Barbosa dos Santos é mestre em Linguística Aplicada pela UnB e se prepara para ingressar no doutorado. Ela realizou três cursos de inglês pelo IsF e, agora, está na turma preparatória para o teste de proficiência TOEFL ITP.

“Pretendo ir para fora do país para fazer doutorado sanduíche. Todos os conteúdos do programa são muito bons e importantes para que eu possa manter ou avançar no domínio do inglês. Além disso, dou aula de português para estrangeiros, o que reforça minha necessidade de ser fluente no idioma”, compartilha Eliana dos Santos.

A experiência tem sido enriquecedora não apenas para a aluna, mas também para o docente responsável pela turma. “É minha primeira experiência formal como professor. Antes, atuava com aulas particulares e reforço. Estou gostando por ser um ambiente seguro para aprender a ensinar”, relata Vinícius Paz de Araújo, graduando no quinto semestre da licenciatura em Letras-Inglês na UnB.

Ele avalia a experiência como um diferencial para ingressar no mercado de trabalho. “Trata-se de um programa de peso, reconhecido em âmbito federal. Além disso, periodicamente os coordenadores assistem a nossas aulas e nos dão retorno do que temos executado bem e dos aspectos em que precisamos melhorar. Outro ponto positivo são as reuniões pedagógicas semanais, em que trabalhamos a língua propriamente dita e os aspectos do ensino de idiomas. É uma experiência perfeita para quem deseja aprender a exercer a docência”, avalia Vinícius Araújo.

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (Postrad/IL), Égon Lucas Alves Neves foi professor de japonês no IsF, entre 2017 e 2018, durante a licenciatura em Letras-Japonês na UnB. Ele também recebeu uma bolsa para lecionar o idioma, nesse caso, o benefício veio da Fundação Japão – uma das instituições a investir no IsF.

“Em sala de aula, tive a chance de colocar em prática o aprendizado da graduação. Também foi um incentivo para continuar minha carreira acadêmica. Segui com o mestrado e, posteriormente, passei na seleção de professor substituto da área de japonês na UnB, em que tenho atuado”, conta Égon Neves.

A experiência também rendeu a ele uma viagem ao país asiático. “Fiz o intercâmbio com uma bolsa destinada a professores e financiada pela Fundação Japão. O projeto durou cerca de um mês e contemplou professores de diversas universidades brasileiras. Durante a experiência, participamos de vários workshops e aulas. A proposta foi retornar ao país e aplicar esse conhecimento durante as aulas”, recorda.

O norte-americano Avram Blum ressalta o potencial do Idiomas sem Fronteiras em formar uma rede nacional de especialistas no ensino de línguas estrangeiras. Foto: Audrey Luiza/Secom UnB

FORMAÇÃO DOCENTE – Nativo dos Estados Unidos, Avram Blum é doutor em inglês e mestre em ensino de inglês como língua estrangeira pela Universidade de Washington. Uma de suas primeiras vindas ao Brasil foi para um intercâmbio destinado ao ensino de inglês em Pernambuco. No ano seguinte, participou da seleção de especialistas interessados em elaborar o Idiomas sem Fronteiras. Desde então, ele tem contribuído com iniciativa.

“A parte que mais nos motiva é ver o impacto que o ensino de línguas está tendo no Brasil, com potencial de melhorar a formação de professores. Para nossos alunos das licenciaturas é a oportunidade de ter experiência prática, já que muitas vezes os cursos são bastante teóricos”, analisa Blum, que desde 2015 é docente no Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução (LET/IL). Ele também atua como coordenador-geral do inglês na UnB pelo IsF.

Para o especialista, um dos maiores ganhos do programa é a grande rede de especialistas no ensino de línguas que tem se formado no país. “São mais de 180 instituições participantes. É fantástica a capilaridade do programa, integrando e formando professores em todo Brasil”, analisa.

Segundo Blum, antes do corte de bolsas de inglês, a UnB contava com dez professores do idioma pelo IsF, cada um responsável por três turmas, somando 750 vagas a cada nova oferta de cursos. Após os cortes, a instituição precisou se readequar. “A própria UnB passou a custear as bolsas. Para isso, foi preciso reduzir a oferta para 300 vagas. Isso será mantido até dezembro. Para o próximo ano ainda não sabemos como será”.

As bolsas da Capes que eram destinadas aos professores do programa equivaliam a uma bolsa de mestrado, no valor R$1.500 mensais. O tempo de dedicação semanal era de 20 horas, com vínculo de dedicação exclusiva – o estudante não poderia ter outro vínculo empregatício ou benefício.

SOBRE – O Idiomas sem Fronteiras (IsF) promove o estudo de línguas estrangeiras em prol da internacionalização das universidades brasileiras. Podem concorrer às vagas estudantes, docentes e técnicos administrativos de universidades, institutos federais e faculdades de tecnologia públicas. Professores de idiomas da rede pública de ensino também integram o público-alvo, desde que a instituição esteja credenciada junto ao IsF.

Há cursos presenciais e a distância. O programa oferta alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, japonês e português para estrangeiros. O IsF é promovido pelo Ministério da Educação e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tendo cooperação da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Criado em 2012 para auxiliar universitários a ter acesso aos programas de mobilidade ofertados pelo governo federal, o programa transformou-se em um braço importante da internacionalização no país, sendo também oportunidade de residência docente para os licenciandos em línguas estrangeiras.

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